terça-feira, 28 de outubro de 2008

O mal de todos os males.



Eu sofro de um mal. Não é uma doença rara, mas não tem cura. Não mata ninguém, pelo contrário. Te consome. Te tira do sério. Te faz esquecer quem você é. Seus valores, sua doçura, sua educação, seu amor próprio. Sua razão. Muitas vezes, chego a pensar que pode ser pior que qualquer outra doença.

Com outras doenças, você, cedo ou tarde, sabe o que vai te acontecer. Vai morrer, perder um braço, a visão, engordar demais ou de menos... Um médico aí te dá uma explicação. Tem estudos, tem cura, não tem cura. Não, não quero nada disso. Nem pra mim, nem pra ninguém.

Mas o meu caso é o seguinte. Não tem explicação. Quando vou ao médico e digo: "Quero uma explicação! Preciso de ajuda!", recebo uma cara de interrogação e um sonoro "Não há nada que possa fazer para ajudá-la" em troca. Grande porcaria esses diplomas que vocês tem então. Mestrado, doutorado, pós e vivência no exterior e o caralho a quatro e ao cubo. Uns adoram dizer que é frescura de mulher, outros dizem que preciso diminuir o sal, o café, o chocolate, para minimizar os efeitos. Mas ninguém sabe ao certo o que pode me ajudar. À merda todos as suas qualificações então, se não conseguem eliminar a "frescura" que dizem que tenho.

É muita coisa pra descrever. Primeiro começa com uma irritação. Tudo irrita. Coisas que não te irritam usualmente, passam a ser completamente irritantes. Os programas de televisão, as conversas das pessoas na rua... todas parecem muito estúpidas pra ser verdade. Dá vontade de mandar todo mundo calar a boca. A sua aparência é o maior alvo de suas auto-críticas. Tá tudo errado! Inchado, dolorido... doem muito as pernas e os seios. A pele fica sensível e irritada. Cólica, daquelas que te deixa de cama e abaixa a pressão. Enxaqueca de dar ânsia. Você toma um chá novo aí, óleo de prímula, buscopan, neosaldina. E apesar de tentar controlar a alimentação, trocar a sua dieta por algo mais leve, com pouco sódio, açúcar, ácidos... é exatamente o que te faz mal que você mais precisa. É o que te conforta.

Uma hora a irritabilidade emocional se transforma em euforia. Dá vontade de acordar cedo aos domingos, sair correndo e fazer mil coisas! Pra daqui algumas horas, você ficar com uma raiva incontrolável do mundo novamente. Aí, dá vontade de chorar. Tudo é triste. Os comerciais de margarina são as coisas mais lindas já criadas pelos homens! Ninguém gosta de você. Tudo que você fez e faz não tem valor. Não tem apreço. Você se acha a pessoa mais infeliz do mundo.

A casa que está suja, mas o corpo tá muito cansado e pesado pra fazer qualquer coisa. O filho da puta do cachorro da vizinha que não pára de latir. A família que não deixa de te azucrinar, pois tudo que sugerem é revertido na sua cabeça por azucrinação mesmo. O dia que tá muito quente, ou muito frio, ou chovendo demais. A televisão que não passa nada de interessante. Os livros todos que te dão tédio. Os amigos, o namorado, que não te aguentam mais, pois nada que falam te consola... Você tem que ir trabalhar com todas as dores que sente, e fingir que está tudo bem, pois é frescura sua. Não é? Quem tem frescura, não consegue se manter no mercado, ter respeito de seus colegas, e médico nenhum dá atestado para frescura.

É muita confusão pra uma pessoa só. Parece até o expresso para o fim do poço. Uma verdadeira montanha russa. Só que preciso ter paciência, porque quando menos espero meus sintomas desaparecem. Nem lembro mais porque estava tão mal-humorada. Imagina! Impressão sua, meu bem. Não lembro de ter sido grossa, nem de ter te mandado a lugar algum! Por que estão todos tão ofendidos? Eu que tenho dores todos os meses e vocês que ficam bravos? Pois saibam que o que tenho não se controla. Não é um botão de liga e desliga que é ativado para minha conveniência. Já deixo avisado para quem me conhece, que existirão dias que eu não serei bem eu. Não me responsabilizo pelos seus possíveis danos morais. E por favor, não me contrarie, porque bem hoje, a irritação começa a subir pelo pescoço e explode na cabeça (geralmente na forma de diarréia verbal).

Existe uma forma de me deixar mais calma. Já que tudo dói, uma massagem de leve, por favor. Nas costas e nos pés. Um chá. Ou melhor, uma infusão de erva-cidreira. Um colo, mas só quando eu solicitar. Um filminho as vezes vai bem... com sorvete! Não vem me pegando, porque vai levar na cara. Tem que ser com cuidado... Me elogie bastante também. Mesmo que de pijama e com o cabelo num birotinho ridículo. Diga que sou a pessoa mais linda e inteligente desse mundo e me lembre que logo logo, tudo isso vai passar. Mas cuidado pra não falar demais, se não... já sabe. Deixa eu te xingar a vontade. Tenho que descontar a minha raiva! Tudo bem, eu xingo sozinha de qualquer forma, mas se tiver alguém ouvindo, melhor ainda! Mas por favor, não leve a sério, porque eu também não estou falando sério.

Não, não preciso ser enjaulada. Sou mulher, e sofro de TPM.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Padaria e Papagaio

E paulistano adora uma padaria.

Todo mundo sai de casa com aquela pressa descomunal, se atropelando, rezando pra não perder o ônibus, pro trânsito não ser pior que já é, pra não ter nenhuma manifestação na rua... e deixa pra tomar café na padaria mais próxima do trabalho. 

Mas a pressa é só uma desculpa. São Paulo tem lindas e deliciosas padarias. Ir a uma padaria para tomar café da manhã é um precioso ritual. Não existe melhor forma de começar o dia.

Eu sempre fiz isso. Sempre deixei pra tomar café da manhã numa padaria no meio do caminho. Da faculdade até o trabalho, sempre encontrei lugares decentes, mais ou menos limpos... não que uma padaria tenha que ser nota dez pra Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), porque, no final das contas, nenhum estabelecimento de Alimentos e Bebidas é 100%, e isso eu posso afirmar com toda a certeza e frieza do mundo.

Quer ter certeza que a sua comida é micróbios-free? Não saia de casa então. 

Mas para tudo existe um limite. 

Digo isso pois, de todos os lugares que eu já fui, incluindo aquele restaurante Chinês na Liberdade, que só Deus sabe qual é o nome, e que se eu bem me lembro tem galinhas vivas circulando pela cozinha e detergente Bombril para os clientes lavarem as mãos no banheiro, nenhum, nada nesse mundo, se compara a padaria da Rua Rocha.

A padaria da Rua Rocha não é a única padaria da rua, mas é a única no meu caminho. É uma padaria suja. No sentido mais amplo da palavra. Daquelas com caixas de garrafas de cerveja vazias e sem utilidade empilhadas no meio do caminho. Com cartazes de preços feito com caneta bic. Com pedaços de papelão espalhados pelo chão com as pontas roídas. Com panos sujos de gordura carbonizada esquecidos no canto da chapa. Com os atendentes de unhas compridas. Com restos de comida caídos pelo chão e que não vêem uma vassoura desde... nunca viram. Com seus pães, biscoitos e doces empilhados em uma vitrine escura e encobertos por "misteriosos" pontinhos pretos (estou tentando decidir se é de barata ou de rato). Com produtos de geladeira abertos na bancada, e que não tinham intenção nenhuma de voltar para a geladeira. Com muitos, e muitos, e muitos, buracos e fendas nas paredes e tetos.

Um dia desses, alguma coisa pingou em mim, e não era água.

Eu acabava parando na padaria pra pegar algo enlatado, pois o risco de contaminação dessa forma seria igual a de qualquer outro lugar. Um suco, um achocolatado... nada de mais. Até então, nada me ofendia...

Mas hoje foi a gota. Saí destrambelhada de casa e esqueci minhas frutas para comer no trabalho, e num ato de desespero parei na padaria e pedi um "pão na chapa". Muito ansiosa para que fizessem logo o pão e eu pudesse sair de lá o mais rápido possível, assim que recebi meu pão num saquinho, vi a cena mais curiosa.

Um papagaio na bancada.

Um papagaio na bancada e todos os atendentes da padaria fazendo cafuné nele. Um papagaio na bancada e todos os atendentes fazendo cafuné nele enquanto faziam os sanduíches, pães, cafés e sucos que outros clientes pediam. Um papagaio na bancada e todos os atendentes da padaria dando de comer ao papagaio. Um papagaio na bancada e todos os atendentes da padaria celebrando a visita diária do papagaio.

Um papagaio na bancada de uma padaria.

Não, mais uma vez: UM PAPAGAIO NA BANCADA DE UMA PADARIA.

O papagaio havia sido trazido por um cliente. E pelo que compreendi, sempre leva o papagaio para beliscar alguma coisa na padaria.

E eu, perdi a fome pelo resto do mês. E já comprei bactrim só pra garantir.




sexta-feira, 17 de outubro de 2008

What woman want

Durante toda a minha curta experiência profissional eu trabalhei em ambientes dominados por homens. Pra quem sabe, mesmo depois da "revolução gastronômica" no Brasil, as cozinhas continuam sendo, e sempre serão dominadas por homens. É um ambiente rude, pesado e estressante, que não tem espaço para frescura, fraquezas, vaidades nem feminilidades. Podem até discordar, porque cozinhar em restaurantes contemporâneos envolve criatividade, estética e delicadeza. As mulheres possuem isso naturalmente, mas não aguentam o trabalho. Pelo menos não na sua forma mais bruta. E as que aguentam, como eu aguentei, apresentam a mesma falta de vaidade. Só sabem que somos mulheres na cozinha, porque o uniforme é mais justo.

O meu dia a dia era dentro de meu uniforme surrado e meus coturnos, cabelo preso sem vaidade nenhuma, unhas bem curtas. Semblante sempre sério, rígido, precisava demonstrar que era mais forte do que os 8 homens que eu liderava. Falava mais alto, olhava nos olhos, disciplinava da forma mais justa que podia. Conquistei o respeito da equipe muito fácil. Todos trabalhavam juntos, e por mim. Não tolerava intrigas, fofocas nem briga de egos. Manti o ambiente mais saudável que pude, e vou levar essa experiência para o resto da minha vida. Mas não tinha sossego. O estresse era constante, por todo e qualquer motivo. Passei a ranger meus dentes durante o dia. 

Quando os meus dias de chef não mais me bastavam, resolvi que era hora de mudar para algo diferente. Larguei as cozinhas de vez, sem olhar para trás. Não sinto saudade do trabalho. Hoje, depois que a tempestade passou, sei que dei o melhor de mim e fiz um trabalho do caralho, sem falsa modéstia. Encontrei o meu sossego num ambiente que sempre quis fazer parte, mas não tinha a maturidade necessária para tal : importadora de vinhos.

Durante meus dias de chef, aproveitei para estudar vinhos. Esse também é um mundo dominado por homens, são eles os detentores do conhecimento sobre os vinhos e os maiores compradores. Preciso admitir aqui que o mundo dos homens sempre me fascinou. Sempre tive o ímpeto de participar de suas conversas, das rodinhas de charuto-conhaque-política-vinhos, e mostrar que o que eles sabiam eu também sabia, que era diferente e que podia. Não porque queria ser um deles, mas porque seus assuntos sempre me pareciam mais úteis e interessantes do que o das mulheres (nota: exclui-se aqui os assuntos relacionados a futebol e grosserias sobre mulheres).

Enfim, há poucos meses iniciei minha carreira neste mundo intelectual, refinado e exclusivo. Neste país, quem sabe alguma coisa sobre vinho, já é tido como diferenciado (nota: a verdade é que a maioria não sabe porra nenhuma, e ainda utilizam os seus escassos artifícios para tentar impressionar alguém, quando na verdade o que está fazendo é causando um grande constrangimento para todos os envolvidos). O que quero dizer, é que minha vida, nos último 3 meses, se viu de pernas para o ar.

Explicado o contexto do meu drama, passo a narrá-lo de fato. Um dia, estava eu dentro de uma cozinha de coturnos e uniforme encardido, e rodeada por homens. No dia seguinte, literalmente, me vi em um ambiente formal de escritório e...cheio de mulheres! No primeiro momento, nada de mais me ocorreu. Não me intimido fácil. 

Um desses dias, ao atender um cliente ao telefone, ele me indaga, aos risos :

"- Mas que barulho é esse aí? Por acaso vocês estão reformando a loja?"

Levei alguns segundos para entender que ele se referia ao barulho que o salto alto da mulherada faz no chão de madeira. A minha mesa fica em um local de passagem, então todos os saltos ecoam no meu telefone. E foi a partir daí que entendi que minha realidade era outra: estava rodeada de MULHERES FEMININAS! 

Mulheres de salto alto, saias coloridas, fofocando sobre seus namorados, se maquiando em frente aos seus computadores, lixando as unhas, trocando dicas sobre as melhores marcas de silicone para os cabelos e shakes dietéticos. Fiquei zonza por alguns minutos. Tive um ligeiro ataque de pânico e acho que até taquicardia. Saí para beber água, fechei os olhos por alguns segundos...e meu Deus do céu! Mais mulheres.

Elas são impecáveis. Cabelos sempre muito bem arrumados, maquiagem, roupas da moda, sapatos para cada dia da semana. E lembrando do meu passado, nunca precisei me vestir bem para ir trabalhar. Comprei uma meia dúzia da calças sociais, um sapato preto de bico fino, camisas e desenterrei minhas jóias. Por alguns segundos, até achei que conseguiria levar a vida com roupas mais sérias. Não me reconheci. Achei melhor deixar pra lá.

(Não me entendam mal. Não estou aqui escrevendo sobre futilidades... e sim admirando a feminilidade dessas garotas, que trabalham muito e sério, sem sair do salto!).

Incrível. Acho que estava vivendo um grande hiato. Lembrei de como era minha vida até a faculdade, quando ainda não trabalhava. Tinha muitas roupas, sempre achava os lugares mais diferentes para comprar. Não podia ser nada da moda, que qualquer um encontrasse. Tinha meus brincos, broches, colares, lencinhos, sandálias melissa, plataformas... meu cabelo sempre exigiu pouquíssimo cuidado e nunca usava maquiagem. Mas mesmo assim, era feminina. E por mais incrível que parece, cheia de personalidade.

Quando foi que deixei de investir em mim mesma? Minhas roupas passaram a ser mais práticas, e o coturno, meu calçado mais fashion, ficou tedioso e virou parte do meu dia a dia. Me vi perdida no meio da multidão, e não destacada, como costumava ser. Fiquei apática. Sem inspiração. E mesmo quando me arrumava, tentava manter o mais casual o possível... sempre tive a maior vergonha de demonstrar vaidade! Como se a vaidade me transformasse em uma pessoa fraca.

Parece que encontrei na minha rotina uma forma de não olhar para mim mesma. O trabalho me consumia e era a desculpa perfeita para não "ter tempo para essas coisas". Não que a convivência com essas meninas me fez querer ser igual a elas. Simplesmente, acho que acordei que, talvez seja a hora de parar, respirar e... cuidar de mim. Nunca tive tempo livre... acho que é isso que as pessoas fazem quando têm algum tempo livre. Cuidam de si...

Nas últimas semanas andei testando algumas coisas... fiz as unhas, massagem, fiz compras para mim e para minha casa (que encontrava-se em estado de ligeiro abandono), comprei um esfoliante para o corpo, máscara anti-cravos, sabonete especial e tônico facial, hidratante oil-free, uma bacia novinha e essência de alecrim para fazer um escalda-pés... e sabe que nem doeu?

O cabelo continua daquele jeito que se conhece. As unhas, não deu. Bem curtas e sem esmalte, é como prefiro. O coturno foi substituído por uma bota de montaria clássica, sem salto. Os brincos, resgatei antigos e flertei com novos. O mesmo para os colares...

Não sei... mas acho que posso até gostar dessa coisa de ser feminina...




quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dirige o teu, que eu dirijo o meu

Ah... minha estimada São Paulo!!! Por que tu me decepcionas tanto??? Por que tanta gente mal educada? Por que esse trânsito?

Eu já sou uma paulistana conformada. Não me irrito mais tanto assim com o trânsito. Eu aproveito para ouvir o noticiário, cortar minhas unhas, colocar algumas leituras em dia... Faz parte. A metrópole inchou e eu fiz, e faço, parte disso. Os marronzinhos, os flanelinhas, os vendedores, motoboys... ficam muito pequenos, quando comparados a um outro aspecto muito peculiar do trânsito:


Homens X Mulheres ... no trânsito.


Nada me irrita mais na vida, do que ver uma meia dúzia (de homens) parada na esquina comentando em meio a risadinhas abafadas pelas mãos alguma suposta barbeiragem feita por alguma mulher.


"Ah, mas mulher dirige mal! É muito ruim no trânsito!"


Primeiro: vai pra puta que te pariu.


Segundo: mulheres não seriam classificadas como inaptas a dirigir, se os homens não furassem todas as regras e seguissem uma conduta aceitável. E mais uma observação: a grande maioria dos instrutores das auto-escolas são homens.Ou seja, se mulheres dirigem mal, é porque foram os homens que as ensinaram a dirigir assim.


Sim. Vocês homens conseguem ser os piores condutores do trânsito. Ah!!! Como adoram dar uma de espertinhos!!! Costurar no trânsito carregado das marginais, achar que é piloto em serra de praia, entrar na contramão porque está com preguiça de dar a volta no quarteirão, fazer retorno onde tem uma placa gigantesca dizendo que é proibido... Sim, tudo isso são homens que fazem, e não mulheres.


Andar dentro do limite de velocidade, parar para fazer uma conversão a direita ou esquerda, dar seta, parar para pedestres, respeitar sinalização... isso tudo, não é dirigir mal. Talvez, seja uma certa falta de malícia, e só. Então, por que julgar tanto? Ah sim, os homens de hoje geralmente são muito mais desocupados e fofoqueiros que mulheres. Não pode ficar quieto? Por que então não cuida da tua vida e PRESTA ATENÇÃO NO TRÂNSITO? Ah!!! Tá vendo? Bateu o carro... e tenho certeza que vai colocar a culpa na mulher ainda... foi ela quem te distraiu, não foi? Culpada...

Mas a pior parte não é a de andar no trânsito não... classifica-se como : baliza. Ah... a baliza. Se seguir as instruções direitinho, não tem erro. Para pertinho ao lado do carro da frente que se pretende estacionar... dá seta para a direita...vira todo o volante em sentido horário e engata a ré. Dá ré até a metade do teu carro ficar paralelo ao pára-choque do carro da frente... vira o volante na direção contrária e continua dando ré e pronto... perfeito! Tá estacionado. Nenhuma dificuldade até aí.

Embola o meio de campo alguns fatores são somados à baliza: trânsito atrás do teu veículo, rua de duas mãos estreita e com trânsito do outro lado da onde se pretende estacionar e... uma platéia.

É tão divertido assim assistir uma mulher a fazer baliza? Jura que não existe nada mais produtivo para fazer?

Aí, tudo bem né... finjo que não é comigo. dou uma risadinha... ignoro a platéia... saio do carro como se nada tivesse acontecido ou acontecendo... (como o meu carro estacionado a exatos 30cm longe da guia, fruto do nervosismo conseqüente da falta de direção hidráulica, uma espaço muito pequeno para se estacionar, um calor escaldante e, claro, atrasada 15 minutos para entrar no trabalho).

Pois agora segue a narração do ocorrido de dois dias atrás.

Estava eu, a interlocutora, dirigindo em direção ao trabalho, tentado visualizar aquela vaga perfeita bem em frente à entrada do trabalho, que está sempre ocupada... mas desta vez não. Direcionei meus pensamentos e esforços na tal vaga, com muita precisão. Virei na ruazinha, e lá estava ela... Ah! Acho que um raio de sol iluminava bem ela e eu até ouvi Vivaldi tocando!!! Nenhuma fila de carros do outro lado da rua! Nenhum carro atrás de mim! É a minha chance! A vaga perfeita!!!! Vamos lá... dá seta, vira o volante e blah blah blah... Foi aí que o sinal do outro lado da Rebouças abriu, e prontamente se formou uma bela fila de carros do outro lado da rua, só pra dificultar a manobra. E adivinha!!! O farol da Gabriel também... tinha um puto com um carro enorme atrás de mim. Disse "não!" a mim mesma... essa vaga é minha e eu vou estacionar aqui!

Estava de TPM...

Parece até que o carro que estava atrás me ouviu... Ele parou longe de mim... para que eu fizesse minha baliza. Ah! Que alegria... foi quando olhei pra minha esquerda... e lá estava ele. Um homem. Um tiozinho, grisalho, enrugado num carro do outro lado da rua e com um sorrisinho amarelo...Balançava a cabeça pra cima e para baixo, como se estivesse assistindo ao seu programa de comédia favorito. Tudo bem, era só ignorar. Mas eu ousei a olhar pra ele novamente. Foi aí que ele levantou a sua mão esquerda e desenhou com o dedo indicador um circulo em sentido horário no ar... como se quisesse dizer o que eu deveria fazer, na baliza. Eu entendi na hora o sarcasmo. Bom, quero dizer, entendi COMO sarcasmo.

Ah, queridinho... mexeu com a pessoa errada, na semana errada. E foi bem nessa hora que eu senti um calor subindo pelo meu pescoço e se espalhando pela minha face e orelhas. Enruguei a testa, mordi os lábios e não me contive. Abri a porta do carro, deixando-o ligado e estacionado bem na diagonal da vaga. Tranquei o trânsito atrás de mim. Saí do carro e olhei bem nos olhos do tiozinho, este demonstrando uma certa cisma. E disse:

"Oi... Tá engraçado né... é né... engraçado... vamos fazer o seguinte, vamos? VOCÊ DIRIGE O TEU CARRO, QUE EU DIRIJO O MEU, PORRA!".

Bem feito. Ficou constrangido, arrancou o carro aproveitando convenientemente que o farol tinha acabo de abrir e foi embora.

Um grupo de senhoras do outro lado da rua me aplaudiu. Estacionei meu carro bem precisa e vagarosamente. Liberei o trânsito. Ganhei o dia.


segunda-feira, 28 de abril de 2008

Bizarrices da Noite

Uma das inúmeras vantagens de viver em uma megalópole: serviços de natureza alimentícia perpétuos, também conhecidos como restaurantes 24 horas. Com o advento das baladas, grande instituição que teve sua origem mais provavelmente nos primórdios da sociedade moderna (século XIV, ou XV talvez...), nos então romantizados bailes da sociedade nos quais as pessoas compareciam para dançar, socializar e, naturalmente, embriagar-se, sabe lá Deus como foi evoluir no formato de hoje (quer dizer, eu sei...mas essa será uma longa análise deixada para uma próxima oportunidade).

Retomando, os restaurantes 24 horas nasceram da necessidade dos bêbados da noite se alimentaram no pós balada. Ninguém em sã consciência aparece em um restaurante depois das 02h00 am. Para isso, não seria preciso que trabalhassem durante 24 horas, e sim encerrar os seus serviços mais tarde, o que já é feito. Ou seja, por um princípio básico da economia, se existe oferta, existe demanda. Ou melhor, a oferta só existe por causa da demanda. E é de senso comum que São Paulo tem muitos bêbados famintos...

Enfim, no meu pós balada de sábado, o que envolveu muita cerveja, uma garagem de rock alternativo e por um descuido da administração da garagem, música pop/trash dos anos 80, o namorado resolveu que queria sair mais cedo da balada para comer, pois estava com fome.

- Vamos no Paris 6, hoje estou poderoso...

O Paris 6 é um restaurante francês tradicional e pomposo, com comida descente e cheio de pessoas ávidas por conversas fiadas e com um ar bastante blasé em suas visages... Público mais que específico.

Chegamos ao restaurante, eu com a gastrite do ano por ter tomado 3 neosaldinas na esperança de aniquilar uma enxaqueca de estômago vazio, e o namorado entusiasmado por repetir as histórias da noite por quantas vezes o resquício de álcool em seu organismo o encorajasse.

Sentamos em uma mesa no canto. Ao lado, uma mesa com dois rapazes e uma moça, do perfil anteriormente descrito.

Enquanto o namorado repetia a mesma história pela décima vez, comecei a dispersar e a conversa da mesa do lado me chamou a atenção, no que um dos rapazes dizia:

"... existe um escritor chamado Eric Hobsbawn e blah blah blah..."
"- Puta merda... quatro horas da manhã e o fulano tá citando Hobsbawn..."


E foi aí que na minha neurose estudantil resolvi prestar atenção, pra ver se aprendia alguma coisa... Voltei pra minha mesa a hora que o namorado resolveu que ia ao toilet e me perguntou onde ficava. Dispersei por mais alguns instantes, até que a mesa ao lado novamente chamou a minha atenção, dessa vez literalmente.

"- Com licença! Podemos pedir sua opinião sobre um assunto?
- Claro, por favor...
- Se alguém dissesse pra você que a fulana lá não era uma mulher, mas um "ser", o que você pensaria?"

... mas que po*** é essa? Bem feito. Agora responde...

"- Hum... olha, acredito que isso daria margem a longas discussões filosóficas...
- O que significa que você precisa de um contexto maior e mais desenvolvido.
- Uhum (e um café, pra ficar sóbria)."

Volta o namorado pra mesa. Comecei a me sentir um hipócrita por não estar prestando atenção nas vigésimas versões das histórias da noite, mesmo porque ele consegue fingir melhor que presta atenção nas minhas bobagens, e voltei toda a minha atenção para a nossa mesa. Mesmo porque meu steak tartare tinha chegado e estava delicioso.

Só que agora o silencio imperava na nossa mesa. Eis que o digníssimo, encontrando um vácuo de lucidez em seu estado torpe, profere as seguintes palavras:

"- A hipocrisia rege o mundo."

Ai...

"- Mas...por que você diz isso?(disse eu, com peso na consciência por não ter prestado atenção no que ele dizia, e sim na conversa irrelevante e despropositada da mesa ao lado).
- Ah, nada não... estava prestando atenção na conversa da mesa ao lado...".

Ha. Coisas do tipo, só na megalópole, as 04h00 am, pós balada, num restaurante francês comendo steak tartare... Mais bizarro, impossível.

domingo, 13 de abril de 2008

Pensamentos

Vontade de dividir um pensamento...

Um dia desses ouvi de uma amiga com um estado de espírito bastante alterado naquele momento (leia-se estressada ao extremo e parcialmente frustrada), sobre o seu trabalho : "Isso aqui é a minha vida! Eu dou meu sangue todos os dias! Eu não tenho vida pessoal pra fazer esse negócio ir pra frente!".

Na hora em que ouvi isso me senti muito mal. Não por ela estar estressada e frustrada, mas por mim. Exercemos a mesma atividade. Trabalhamos muito próximas. Mas eu não partilho do mesmo pensamento. Não que eu não me dedique ao meu trabalho, ou não goste do que faço. Há algum tempo atrás, lembro de ter ficado quase na mesma situação... estressada, frustrada, esgotada. Dei meu sangue sim, perdi momentos importantes com minha família, amigos e pessoas queridas em nome de uma visão...Sabia que se conseguisse fazer bem o que faço hoje, conseguiria fazer tudo o que quisesse daí pra frente. Mas algo aconteceu neste meio tempo e entrei em crise profunda comigo mesma, achando que tinha escolhido muito mal minha profissão, por não conseguir me jogar de cabeça, como grande parte dos meus colegas de trabalho. E daí, as interferências externas... fulanos que adoram perguntar uns porquês que nem eu mesma sei, e quando soubesse só poderia interessar a mim. Mas que mesmo assim, conseguiram me confundir de tal forma, a me induzir o pensamento de que tudo o que fiz e faço é despropositado e errado. Qual o meu problema então? Por que eu não posso ser como eles?

Mas a verdade é que o mundo no qual eu estava vivendo acabou ficando muito pequeno. E foi a partir dessa constatação que entendi a minha condição, o meu lugar no mundo. Sempre fiz várias coisas ao mesmo tempo, e de certa forma quem tem essa terrível "mania" acaba sendo desvalorizado, tachado como instável, indeciso, inconstante. Engraçado que, outro dia caiu no meu colo um livro sobre filosofias "orientais", e abri bem na página que discutia a diferença sobre "renovação" e "instabilidade emocional", e que de fato uma nada tem a ver com a outra. Mudar de opinião e querer sempre mais não quer dizer simplesmente instabilidade emocional e que Shiva valorizava e representava exatamente a renovação (ou alguma coisa assim).

As coisas começaram a ficar tão claras, que a cada novo (ou repetido) questionamento, mudei minhas respostas. Começando pela minha pós-graduação. É um absurdo uma cozinheira querer conhecer e entender a política e relações internacionais, mas é perfeitamente normal um jornalista querer aprender a cozinhar? "- Ah, mas é diferente... todo mundo pode querer aprender a cozinhar". Ah! Mas então eu deveria ser tão medíocre a ponto de parar por aí, já que foi só o que aprendi? Não, não é diferente. É exatamente a mesma coisa. Minha profissão é real e complexa como outra qualquer, exige estudo e uma dedicação sobrenatural. E também, sou uma cidadã do mundo que se recusa a absorver notícias do jeito que outras pessoas querem que eu absorva, e melhor ainda, me recuso a ser alienada. Informação não é para poucos, é para todos. Faço o que quero e porque eu quero. E o motivo só é claro para mim mesma. Sou uma pessoa de muitas paixões, de muito projetos, inquieta, aprendo fácil, vivo em constante renovação. É só olhar para minhas costas. Entendeu agora o desenho? Logo, meu mundo é muito maior do que o da maioria das pessoas. Não digo que outras formas de pensamentos são erradas. São puramente diferentes da minha. A minha. As possibilidades são muitas, e eu não preciso escolher somente uma e morrer com ela.

O melhor de tudo foi conhecer pessoas que se encontram na mesma situação, que possuem a mesma habilidade e mentalidade. Conheci pessoas nos últimos tempos, com profissões de muito prestígio e que possuem igual disciplina e dedicação. Mas quando percebo que elas se fecham só naquele mundo, como eu fiz, ficam tristes, vazias, sem brilho... Só a menção de uma nova oportunidade, uma nova idéia, uma atividade paralela diferente, o brilho volta. São poucas essas pessoas, mas são muito especiais. Mas como eu, precisam entender que mudar, renovar-se, querer mais, não é errado. É saudável. É louvável. E é para poucos.

Ah, querida amiga! A sua vida é o seu trabalho... bom para você, pois sua jornada foi curta. Por que tanto estresse, então? A minha está só no começo, pois eu escolho uma vida completa. EU escolho. Basta fechar os olhos, se imaginar num lugar sozinho e pedir silêncio. Ninguém interfere. Ninguém dá palpite. Só você pode saber e buscar o que quer. Pois eu escolhi que minha vida não é o meu trabalho. O meu trabalho é uma parte muito importante dela, mas não vai me definir nunca. E nunca mais vai me consumir

sábado, 5 de abril de 2008

Cidadania

Para morar em São Paulo é preciso tolerar muita coisa. Trânsito a qualquer hora e qualquer dia da semana, filas infindáveis e filas para pegar filas, o barulho ensurdecedor da cidade que não te deixa dormir nunca, a violência, o caos provocado por fenómenos naturais (!), a intolerância.

Eu tolero muita coisa. Aliás, paulista que é paulista ou reclama pro resto da vida ou simplesmente nem repara mais no que acontece. Ficamos assim... dispersos... se fingindo de alienados a tudo a nossa volta.

Porém, existe uma coisa que não tolero. Nunca. Luto com todas as minhas forças, todos os dias.

"Flanelinhas".

Não, não estou escrevendo um texto preconceituoso, racista ou discriminatório sobre uma minoria (ou será maioria?) "desprivilegiada". Estou reivindicando meus direitos como cidadã.

Se o transporte público em São Paulo (e no Brasil) fosse eficiente e amplo, eu não precisaria ter um carro. Se eu não tivesse um carro, não teria que para-lo em estacionamentos toda vez que fosse a algum lugar nessa cidade onde não há espaços na rua para estacionar. Mas se não existissem estacionamentos, precisaria deixar meu carro na rua e na mão de pessoas que não conheço, que exigem dinheiro em troca de "vigiar" o carro na minha ausência e se eu não concordar, serei ameaçada e terei meu carro danificado. Isso não é trabalho honesto. É sacanagem.

Precisaria... hum... será que é assim? Ou é assim porque nós fizemos assim? Se eles estão lá, é porque tem gente que dá dinheiro. A troco de que eu não sei, porque o seu carro não está protegido. É por medo mesmo.

Me disseram uma vez que a rua é pública. E por "rua" eu quero dizer toda e qualquer rua, alameda, estrada, avenida e viela dessa cidade. Todos possuem o direito de ir e vir não prestar contas a ninguém. Se existe alguém a quem devemos prestar contas aqui é a prefeitura (hum...) e a CET. Eles dizem onde parar, quando parar, por quanto tempo parar. E em determinados lugares, é preciso pagar R$ 1,80 pra isso. E pronto.

Ruas não tem donos. Logo, paro meu carro onde quiser e não admito sofrer ameaças por isso.

Mas tanta ousadia e coragem me rendem os seguintes diálogos:

"- Ahê princesa, pode olhar teu carro?".~
- Não.
- Ah, então deixa um dinheiro pro café?
- Não.
- Mas deixa de ser mão de vaca, princesa! Você dirige carro, e não tem dinheiro pra um café?
- Não, não tenho dinheiro pra café. Não tenho dinheiro pra pagar minhas contas, e muito menos pra você. Escuta aqui, não me chama de princesa. E eu não te conheço, logo não tenho que te dar dinheiro pra nada.
- Ah, assim a coisa vai ficar feia pro teu lado, princesa...
- Ah vai? Seguinte, se eu voltar, e alguma coisa tiver acontecido com meu carro, eu chamo a polícia e como você tem coagido quase todas as pessoas que estão nessa rua, terei muitas testemunhas e poderei provar fácil que foi você, e ainda te processo por danos ao patrimônio privado. Entendeu?
- Não."

" - Oi , tia! Deixa eu ficar olhando?
- , olhar pode . Mas eu não tenho dinheiro.
- Mas então não olho.
- Melhor ainda.
- E se um ladrão quiser roubar o teu carro?
- E se vier alguém e roubar meu carro, o que é que vosmecê vai fazer?
- O que é vosmecê?"

"- Oi, pequena!!! Eu tava olhando o teu carro, deixa um dinheiro aí?
- Como é que é?
- Eu estava olhando o teu carro.
- Não estava não. Você não estava nem perto daqui quando eu estacionei meu carro.
- Eu estava na outra rua. Mas sou eu quem toma conta da rua, então você tem que deixar um dinheiro aí.
- Hum... Qual o teu nome?
- Zé.
- Engraçado, Zé... eu não vejo placa alguma que diga que você é quem toma conta desta rua.
- Mas sou eu quem manda aqui! Assim não dá! Todo mundo deixa dinheiro, por que você tem que dificultar as coisa pra quem não têm as condição?
- Então, Zé, nada do que você me falou até agora fez sentido. Não você não manda aqui, e em lugar nenhum. Você não é dono da rua. E se você tivesse vindo falar comigo ANTES de eu deixar meu carro aqui, eu até poderia achar que você ia mesmo olhar o meu carro. Mas como nada disso aconteceu, eu não vou deixar dinheiro. Você não tem esse direito. A sua profissão não existe. E eu não tenho obrigação nenhuma com você.
- Ah, pequena... a coisa vai ficar feia pro teu lado.
- Ah, Zé... você não me conhece. E se conhecesse, saberia que se continuar com essa conversa, a coisa vai ficar feia é pro TEU lado. Então, me dá licença."

Nós pagamos impostos, seguro, estacionamento e o caraio a cuatro pra poder utilizar um carro nessa cidade. Flanelinha não é profissão. Quem trabalha bêbado é demitido por justa causa. Se eu tenho que respeitar quem "trabalha" assim, eles também têm que respeitar quando digo não. Se não há respeito mútuo, não há negócio. Todos fazemos parte de um sistema (babaca, mas ainda é um sistema que promove a ordem, e é baseado em punições, de todos os lados). E se um dia a prefeitura resolver regulamentar a profissão, com treinamentos, pessoas sérias e que de fato terão condições de tomar conta e proteger o teu carro...aí quem sabe...

Pronto. Falei.

quinta-feira, 27 de março de 2008

O cabelo e suas possíveis interpretações relacionadas a linguagem corporal

Ah! As mulheres!

Os seres mais vaidosos do universo conhecido (!). Até Deus duvida do que são capazes de fazer e de se submeter em nome de uma aparência relativamente atraente. Tudo merece atenção : a pele do rosto, a pele do resto do corpo, as unhas dos pés, as unhas das mãos, o cabelo, a sobrancelha, os cílios, os dentes, os lábios, os pés, os cotovelos, a língua (atenção redobrada...), o nariz, as cutículas, os pêlos (ui), enfim... cada dia a lista cresce.

Mas hoje o foco é no cabelo. Nada como um dia de cabelo ruim (bad hair day), para fazer com que a mulher se sinta a última das criaturas. Geralmente, a diferença só ela nota.

Não, não vou falar de cuidados. Nem do meu cabelo. Não tenho receitas mirabolantes. Não uso nada especial. Aliás, quanto menos faço no meu cabelo, mais ele me agradece.

Vou falar do cabelo de uma fulana aí. Digo "fulana", pois eu não tenho a mínima idéia do seu nome. Então, farei melhor. Vou chamá-la pura e simplesmente de Fulana, com éfe maiúsculo mesmo.

Conheci Fulana na sala da pós graduação. Ela, que possui um cabelo loiro escuro, do tamanho médio, com mechas artificialmente mais claras (datadas de ao menos 4 semanas atrás), é com certeza uma das pessoas mais sem graça de aparência que já vislumbrei. Carinha de menina perdida na paisagem excitante de um pasto de gado (mas... será?), pele clara, sobrancelha fina, sorriso inexpressivo, pouco participativa mas muito ávida nas suas anotações. A sua paleta de cores somente compreende : azul bebê, azul celeste, rosa bebê, rosa desbotado, amarelinho e um ocasional roxo, quando ela se sente mais ousada. Senta duas fileiras pra frente da minha, umas duas cadeiras para a esquerda. Hum... como uma pessoa assim poderia chamar a minha atenção?

Pois bem, acredito piamente que pessoas que não são dotadas de personalidade marcante, geralmente precisam fazer alguma coisa que chame a atenção dos demais. Fulana é perdidamente apaixonada por seu próprio cabelo. E conseguiu, da maneira mais esdrúxula e irritante existente no Ocidente próximo me deixar dispersa nas aulas.

Tudo começou na primeira aula, da segunda semana de aula. Eu estava sentada exatamente na quinta fileira, da frente para trás, distante de Fulana duas fileiras pra frente e duas cadeiras para esquerda. Enquanto o professor de História viajava nos seus mapas e em assuntos paralelos sobre a história da história, e que nada tinham a ver com o conteúdo da aula e por conta disso faria com que a aula atrasasse 45 minutos, noto com a minha visão periférica uma movimentação um tanto quanto perturbante à minha esquerda. Uma vez, não me incomodou. Três segundos mais tarde, mais uma vez. Tudo bem, as pessoas tendem a ficar inquietas quando estão ansiosas pelo término da aula em plena segunda-feira. Mas os movimentos persistiram por muito mais tempo e foram tão constantes, que eu acabei saindo do meu "profundo" estado de concentração para agora observar Fulana mexendo no seu cabelinho.

Fulana jogava ele para trás, e balançava duas vezes, da direita para a esquerda, da direita para esquerda. E voltava para sua postura de aluna. Depois, fazia como quem ia prender o cabelo e... jogava ele para trás de novo. E sentava direito na cadeira. Aí, reunia todo o cabelinho, fazia um birotinho, deixava o birotinho cair sozinho e jogava o cabelo para trás novamente, balançando para a direita e para a esquerda, para a direita e para esquerda...

E eu pensava : "Mas que p... é essa? Alguém avisa ela que aqui não se recruta para comercial de shampoo! E que essa m... desse birotinho que ela acha que vai parar num cabelo que nem 30cm de comprimento tem é com certeza o mais patético! Qual será o problema dela? Jura que ela acha que vai chamar a atenção de 39 jornalistas jogando o cabelinho assim? Não dá de outro jeito? É carência? Ou é o inconsciente dela apitando que ela é definitivamente a pessoa mais sem graça da sala, e que se ela quiser a atenção dos machos no recinto, que eles parem de prestar atenção na explanação de um doutor em História da Ordem Internacional para olhar para ela jogando o cabelinho? Ah, vai se f... . Hum, acho que esqueci a luz do banheiro de casa ligada. Afe, nem paguei a conta de luz desse mês. Não. Volta. Concentra. (...) e foi Alexandre, o Grande, o precursor da diplomacia no mundo antigo, conquistando civilizações, transformando suas cidades em Estados macedônicos, e preservando a cultura local para facilitar a legitimação do poder e... P... que pa...!!!!! Ela tem um padrão!!! Nem nisso ela tem criatividade! Eu tenho uma piranha na bolsa... será que cutuco ela e pergunto se ela quer emprestado, só de sacanagem? Será que ela ia perceber que está incomodando? Acho que a próxima vez que ela virar pra trás para ver se tem alguém olhando pro cabelo dela vou fazer cara feia. Acho que não faz idéia. Não mesmo. Infeliz."

E olho a minha volta para ver se não era pura e simples implicância minha com ela em particular, e que todas as mulheres adoram ficar jogando o seu cabelo aos ventos do ar condicionado e... Não. Era só ela mesmo.

Mas uma coisa eu percebi. Num raio de 5m, ela definitivamente conseguiu desconcentrar todos os alunos a ela próximos. Alguns inebriados pelo balanço de seu cabelo loiro. Outros com a mesma cara perturbada de que os movimentos exagerados do cabelo dela de fato atrapalham a aula. Ufa.

E viva as mulheres! Se não fosse por nós, o mundo seria um lugar sem complicações.