segunda-feira, 28 de abril de 2008

Bizarrices da Noite

Uma das inúmeras vantagens de viver em uma megalópole: serviços de natureza alimentícia perpétuos, também conhecidos como restaurantes 24 horas. Com o advento das baladas, grande instituição que teve sua origem mais provavelmente nos primórdios da sociedade moderna (século XIV, ou XV talvez...), nos então romantizados bailes da sociedade nos quais as pessoas compareciam para dançar, socializar e, naturalmente, embriagar-se, sabe lá Deus como foi evoluir no formato de hoje (quer dizer, eu sei...mas essa será uma longa análise deixada para uma próxima oportunidade).

Retomando, os restaurantes 24 horas nasceram da necessidade dos bêbados da noite se alimentaram no pós balada. Ninguém em sã consciência aparece em um restaurante depois das 02h00 am. Para isso, não seria preciso que trabalhassem durante 24 horas, e sim encerrar os seus serviços mais tarde, o que já é feito. Ou seja, por um princípio básico da economia, se existe oferta, existe demanda. Ou melhor, a oferta só existe por causa da demanda. E é de senso comum que São Paulo tem muitos bêbados famintos...

Enfim, no meu pós balada de sábado, o que envolveu muita cerveja, uma garagem de rock alternativo e por um descuido da administração da garagem, música pop/trash dos anos 80, o namorado resolveu que queria sair mais cedo da balada para comer, pois estava com fome.

- Vamos no Paris 6, hoje estou poderoso...

O Paris 6 é um restaurante francês tradicional e pomposo, com comida descente e cheio de pessoas ávidas por conversas fiadas e com um ar bastante blasé em suas visages... Público mais que específico.

Chegamos ao restaurante, eu com a gastrite do ano por ter tomado 3 neosaldinas na esperança de aniquilar uma enxaqueca de estômago vazio, e o namorado entusiasmado por repetir as histórias da noite por quantas vezes o resquício de álcool em seu organismo o encorajasse.

Sentamos em uma mesa no canto. Ao lado, uma mesa com dois rapazes e uma moça, do perfil anteriormente descrito.

Enquanto o namorado repetia a mesma história pela décima vez, comecei a dispersar e a conversa da mesa do lado me chamou a atenção, no que um dos rapazes dizia:

"... existe um escritor chamado Eric Hobsbawn e blah blah blah..."
"- Puta merda... quatro horas da manhã e o fulano tá citando Hobsbawn..."


E foi aí que na minha neurose estudantil resolvi prestar atenção, pra ver se aprendia alguma coisa... Voltei pra minha mesa a hora que o namorado resolveu que ia ao toilet e me perguntou onde ficava. Dispersei por mais alguns instantes, até que a mesa ao lado novamente chamou a minha atenção, dessa vez literalmente.

"- Com licença! Podemos pedir sua opinião sobre um assunto?
- Claro, por favor...
- Se alguém dissesse pra você que a fulana lá não era uma mulher, mas um "ser", o que você pensaria?"

... mas que po*** é essa? Bem feito. Agora responde...

"- Hum... olha, acredito que isso daria margem a longas discussões filosóficas...
- O que significa que você precisa de um contexto maior e mais desenvolvido.
- Uhum (e um café, pra ficar sóbria)."

Volta o namorado pra mesa. Comecei a me sentir um hipócrita por não estar prestando atenção nas vigésimas versões das histórias da noite, mesmo porque ele consegue fingir melhor que presta atenção nas minhas bobagens, e voltei toda a minha atenção para a nossa mesa. Mesmo porque meu steak tartare tinha chegado e estava delicioso.

Só que agora o silencio imperava na nossa mesa. Eis que o digníssimo, encontrando um vácuo de lucidez em seu estado torpe, profere as seguintes palavras:

"- A hipocrisia rege o mundo."

Ai...

"- Mas...por que você diz isso?(disse eu, com peso na consciência por não ter prestado atenção no que ele dizia, e sim na conversa irrelevante e despropositada da mesa ao lado).
- Ah, nada não... estava prestando atenção na conversa da mesa ao lado...".

Ha. Coisas do tipo, só na megalópole, as 04h00 am, pós balada, num restaurante francês comendo steak tartare... Mais bizarro, impossível.

domingo, 13 de abril de 2008

Pensamentos

Vontade de dividir um pensamento...

Um dia desses ouvi de uma amiga com um estado de espírito bastante alterado naquele momento (leia-se estressada ao extremo e parcialmente frustrada), sobre o seu trabalho : "Isso aqui é a minha vida! Eu dou meu sangue todos os dias! Eu não tenho vida pessoal pra fazer esse negócio ir pra frente!".

Na hora em que ouvi isso me senti muito mal. Não por ela estar estressada e frustrada, mas por mim. Exercemos a mesma atividade. Trabalhamos muito próximas. Mas eu não partilho do mesmo pensamento. Não que eu não me dedique ao meu trabalho, ou não goste do que faço. Há algum tempo atrás, lembro de ter ficado quase na mesma situação... estressada, frustrada, esgotada. Dei meu sangue sim, perdi momentos importantes com minha família, amigos e pessoas queridas em nome de uma visão...Sabia que se conseguisse fazer bem o que faço hoje, conseguiria fazer tudo o que quisesse daí pra frente. Mas algo aconteceu neste meio tempo e entrei em crise profunda comigo mesma, achando que tinha escolhido muito mal minha profissão, por não conseguir me jogar de cabeça, como grande parte dos meus colegas de trabalho. E daí, as interferências externas... fulanos que adoram perguntar uns porquês que nem eu mesma sei, e quando soubesse só poderia interessar a mim. Mas que mesmo assim, conseguiram me confundir de tal forma, a me induzir o pensamento de que tudo o que fiz e faço é despropositado e errado. Qual o meu problema então? Por que eu não posso ser como eles?

Mas a verdade é que o mundo no qual eu estava vivendo acabou ficando muito pequeno. E foi a partir dessa constatação que entendi a minha condição, o meu lugar no mundo. Sempre fiz várias coisas ao mesmo tempo, e de certa forma quem tem essa terrível "mania" acaba sendo desvalorizado, tachado como instável, indeciso, inconstante. Engraçado que, outro dia caiu no meu colo um livro sobre filosofias "orientais", e abri bem na página que discutia a diferença sobre "renovação" e "instabilidade emocional", e que de fato uma nada tem a ver com a outra. Mudar de opinião e querer sempre mais não quer dizer simplesmente instabilidade emocional e que Shiva valorizava e representava exatamente a renovação (ou alguma coisa assim).

As coisas começaram a ficar tão claras, que a cada novo (ou repetido) questionamento, mudei minhas respostas. Começando pela minha pós-graduação. É um absurdo uma cozinheira querer conhecer e entender a política e relações internacionais, mas é perfeitamente normal um jornalista querer aprender a cozinhar? "- Ah, mas é diferente... todo mundo pode querer aprender a cozinhar". Ah! Mas então eu deveria ser tão medíocre a ponto de parar por aí, já que foi só o que aprendi? Não, não é diferente. É exatamente a mesma coisa. Minha profissão é real e complexa como outra qualquer, exige estudo e uma dedicação sobrenatural. E também, sou uma cidadã do mundo que se recusa a absorver notícias do jeito que outras pessoas querem que eu absorva, e melhor ainda, me recuso a ser alienada. Informação não é para poucos, é para todos. Faço o que quero e porque eu quero. E o motivo só é claro para mim mesma. Sou uma pessoa de muitas paixões, de muito projetos, inquieta, aprendo fácil, vivo em constante renovação. É só olhar para minhas costas. Entendeu agora o desenho? Logo, meu mundo é muito maior do que o da maioria das pessoas. Não digo que outras formas de pensamentos são erradas. São puramente diferentes da minha. A minha. As possibilidades são muitas, e eu não preciso escolher somente uma e morrer com ela.

O melhor de tudo foi conhecer pessoas que se encontram na mesma situação, que possuem a mesma habilidade e mentalidade. Conheci pessoas nos últimos tempos, com profissões de muito prestígio e que possuem igual disciplina e dedicação. Mas quando percebo que elas se fecham só naquele mundo, como eu fiz, ficam tristes, vazias, sem brilho... Só a menção de uma nova oportunidade, uma nova idéia, uma atividade paralela diferente, o brilho volta. São poucas essas pessoas, mas são muito especiais. Mas como eu, precisam entender que mudar, renovar-se, querer mais, não é errado. É saudável. É louvável. E é para poucos.

Ah, querida amiga! A sua vida é o seu trabalho... bom para você, pois sua jornada foi curta. Por que tanto estresse, então? A minha está só no começo, pois eu escolho uma vida completa. EU escolho. Basta fechar os olhos, se imaginar num lugar sozinho e pedir silêncio. Ninguém interfere. Ninguém dá palpite. Só você pode saber e buscar o que quer. Pois eu escolhi que minha vida não é o meu trabalho. O meu trabalho é uma parte muito importante dela, mas não vai me definir nunca. E nunca mais vai me consumir

sábado, 5 de abril de 2008

Cidadania

Para morar em São Paulo é preciso tolerar muita coisa. Trânsito a qualquer hora e qualquer dia da semana, filas infindáveis e filas para pegar filas, o barulho ensurdecedor da cidade que não te deixa dormir nunca, a violência, o caos provocado por fenómenos naturais (!), a intolerância.

Eu tolero muita coisa. Aliás, paulista que é paulista ou reclama pro resto da vida ou simplesmente nem repara mais no que acontece. Ficamos assim... dispersos... se fingindo de alienados a tudo a nossa volta.

Porém, existe uma coisa que não tolero. Nunca. Luto com todas as minhas forças, todos os dias.

"Flanelinhas".

Não, não estou escrevendo um texto preconceituoso, racista ou discriminatório sobre uma minoria (ou será maioria?) "desprivilegiada". Estou reivindicando meus direitos como cidadã.

Se o transporte público em São Paulo (e no Brasil) fosse eficiente e amplo, eu não precisaria ter um carro. Se eu não tivesse um carro, não teria que para-lo em estacionamentos toda vez que fosse a algum lugar nessa cidade onde não há espaços na rua para estacionar. Mas se não existissem estacionamentos, precisaria deixar meu carro na rua e na mão de pessoas que não conheço, que exigem dinheiro em troca de "vigiar" o carro na minha ausência e se eu não concordar, serei ameaçada e terei meu carro danificado. Isso não é trabalho honesto. É sacanagem.

Precisaria... hum... será que é assim? Ou é assim porque nós fizemos assim? Se eles estão lá, é porque tem gente que dá dinheiro. A troco de que eu não sei, porque o seu carro não está protegido. É por medo mesmo.

Me disseram uma vez que a rua é pública. E por "rua" eu quero dizer toda e qualquer rua, alameda, estrada, avenida e viela dessa cidade. Todos possuem o direito de ir e vir não prestar contas a ninguém. Se existe alguém a quem devemos prestar contas aqui é a prefeitura (hum...) e a CET. Eles dizem onde parar, quando parar, por quanto tempo parar. E em determinados lugares, é preciso pagar R$ 1,80 pra isso. E pronto.

Ruas não tem donos. Logo, paro meu carro onde quiser e não admito sofrer ameaças por isso.

Mas tanta ousadia e coragem me rendem os seguintes diálogos:

"- Ahê princesa, pode olhar teu carro?".~
- Não.
- Ah, então deixa um dinheiro pro café?
- Não.
- Mas deixa de ser mão de vaca, princesa! Você dirige carro, e não tem dinheiro pra um café?
- Não, não tenho dinheiro pra café. Não tenho dinheiro pra pagar minhas contas, e muito menos pra você. Escuta aqui, não me chama de princesa. E eu não te conheço, logo não tenho que te dar dinheiro pra nada.
- Ah, assim a coisa vai ficar feia pro teu lado, princesa...
- Ah vai? Seguinte, se eu voltar, e alguma coisa tiver acontecido com meu carro, eu chamo a polícia e como você tem coagido quase todas as pessoas que estão nessa rua, terei muitas testemunhas e poderei provar fácil que foi você, e ainda te processo por danos ao patrimônio privado. Entendeu?
- Não."

" - Oi , tia! Deixa eu ficar olhando?
- , olhar pode . Mas eu não tenho dinheiro.
- Mas então não olho.
- Melhor ainda.
- E se um ladrão quiser roubar o teu carro?
- E se vier alguém e roubar meu carro, o que é que vosmecê vai fazer?
- O que é vosmecê?"

"- Oi, pequena!!! Eu tava olhando o teu carro, deixa um dinheiro aí?
- Como é que é?
- Eu estava olhando o teu carro.
- Não estava não. Você não estava nem perto daqui quando eu estacionei meu carro.
- Eu estava na outra rua. Mas sou eu quem toma conta da rua, então você tem que deixar um dinheiro aí.
- Hum... Qual o teu nome?
- Zé.
- Engraçado, Zé... eu não vejo placa alguma que diga que você é quem toma conta desta rua.
- Mas sou eu quem manda aqui! Assim não dá! Todo mundo deixa dinheiro, por que você tem que dificultar as coisa pra quem não têm as condição?
- Então, Zé, nada do que você me falou até agora fez sentido. Não você não manda aqui, e em lugar nenhum. Você não é dono da rua. E se você tivesse vindo falar comigo ANTES de eu deixar meu carro aqui, eu até poderia achar que você ia mesmo olhar o meu carro. Mas como nada disso aconteceu, eu não vou deixar dinheiro. Você não tem esse direito. A sua profissão não existe. E eu não tenho obrigação nenhuma com você.
- Ah, pequena... a coisa vai ficar feia pro teu lado.
- Ah, Zé... você não me conhece. E se conhecesse, saberia que se continuar com essa conversa, a coisa vai ficar feia é pro TEU lado. Então, me dá licença."

Nós pagamos impostos, seguro, estacionamento e o caraio a cuatro pra poder utilizar um carro nessa cidade. Flanelinha não é profissão. Quem trabalha bêbado é demitido por justa causa. Se eu tenho que respeitar quem "trabalha" assim, eles também têm que respeitar quando digo não. Se não há respeito mútuo, não há negócio. Todos fazemos parte de um sistema (babaca, mas ainda é um sistema que promove a ordem, e é baseado em punições, de todos os lados). E se um dia a prefeitura resolver regulamentar a profissão, com treinamentos, pessoas sérias e que de fato terão condições de tomar conta e proteger o teu carro...aí quem sabe...

Pronto. Falei.