quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dirige o teu, que eu dirijo o meu

Ah... minha estimada São Paulo!!! Por que tu me decepcionas tanto??? Por que tanta gente mal educada? Por que esse trânsito?

Eu já sou uma paulistana conformada. Não me irrito mais tanto assim com o trânsito. Eu aproveito para ouvir o noticiário, cortar minhas unhas, colocar algumas leituras em dia... Faz parte. A metrópole inchou e eu fiz, e faço, parte disso. Os marronzinhos, os flanelinhas, os vendedores, motoboys... ficam muito pequenos, quando comparados a um outro aspecto muito peculiar do trânsito:


Homens X Mulheres ... no trânsito.


Nada me irrita mais na vida, do que ver uma meia dúzia (de homens) parada na esquina comentando em meio a risadinhas abafadas pelas mãos alguma suposta barbeiragem feita por alguma mulher.


"Ah, mas mulher dirige mal! É muito ruim no trânsito!"


Primeiro: vai pra puta que te pariu.


Segundo: mulheres não seriam classificadas como inaptas a dirigir, se os homens não furassem todas as regras e seguissem uma conduta aceitável. E mais uma observação: a grande maioria dos instrutores das auto-escolas são homens.Ou seja, se mulheres dirigem mal, é porque foram os homens que as ensinaram a dirigir assim.


Sim. Vocês homens conseguem ser os piores condutores do trânsito. Ah!!! Como adoram dar uma de espertinhos!!! Costurar no trânsito carregado das marginais, achar que é piloto em serra de praia, entrar na contramão porque está com preguiça de dar a volta no quarteirão, fazer retorno onde tem uma placa gigantesca dizendo que é proibido... Sim, tudo isso são homens que fazem, e não mulheres.


Andar dentro do limite de velocidade, parar para fazer uma conversão a direita ou esquerda, dar seta, parar para pedestres, respeitar sinalização... isso tudo, não é dirigir mal. Talvez, seja uma certa falta de malícia, e só. Então, por que julgar tanto? Ah sim, os homens de hoje geralmente são muito mais desocupados e fofoqueiros que mulheres. Não pode ficar quieto? Por que então não cuida da tua vida e PRESTA ATENÇÃO NO TRÂNSITO? Ah!!! Tá vendo? Bateu o carro... e tenho certeza que vai colocar a culpa na mulher ainda... foi ela quem te distraiu, não foi? Culpada...

Mas a pior parte não é a de andar no trânsito não... classifica-se como : baliza. Ah... a baliza. Se seguir as instruções direitinho, não tem erro. Para pertinho ao lado do carro da frente que se pretende estacionar... dá seta para a direita...vira todo o volante em sentido horário e engata a ré. Dá ré até a metade do teu carro ficar paralelo ao pára-choque do carro da frente... vira o volante na direção contrária e continua dando ré e pronto... perfeito! Tá estacionado. Nenhuma dificuldade até aí.

Embola o meio de campo alguns fatores são somados à baliza: trânsito atrás do teu veículo, rua de duas mãos estreita e com trânsito do outro lado da onde se pretende estacionar e... uma platéia.

É tão divertido assim assistir uma mulher a fazer baliza? Jura que não existe nada mais produtivo para fazer?

Aí, tudo bem né... finjo que não é comigo. dou uma risadinha... ignoro a platéia... saio do carro como se nada tivesse acontecido ou acontecendo... (como o meu carro estacionado a exatos 30cm longe da guia, fruto do nervosismo conseqüente da falta de direção hidráulica, uma espaço muito pequeno para se estacionar, um calor escaldante e, claro, atrasada 15 minutos para entrar no trabalho).

Pois agora segue a narração do ocorrido de dois dias atrás.

Estava eu, a interlocutora, dirigindo em direção ao trabalho, tentado visualizar aquela vaga perfeita bem em frente à entrada do trabalho, que está sempre ocupada... mas desta vez não. Direcionei meus pensamentos e esforços na tal vaga, com muita precisão. Virei na ruazinha, e lá estava ela... Ah! Acho que um raio de sol iluminava bem ela e eu até ouvi Vivaldi tocando!!! Nenhuma fila de carros do outro lado da rua! Nenhum carro atrás de mim! É a minha chance! A vaga perfeita!!!! Vamos lá... dá seta, vira o volante e blah blah blah... Foi aí que o sinal do outro lado da Rebouças abriu, e prontamente se formou uma bela fila de carros do outro lado da rua, só pra dificultar a manobra. E adivinha!!! O farol da Gabriel também... tinha um puto com um carro enorme atrás de mim. Disse "não!" a mim mesma... essa vaga é minha e eu vou estacionar aqui!

Estava de TPM...

Parece até que o carro que estava atrás me ouviu... Ele parou longe de mim... para que eu fizesse minha baliza. Ah! Que alegria... foi quando olhei pra minha esquerda... e lá estava ele. Um homem. Um tiozinho, grisalho, enrugado num carro do outro lado da rua e com um sorrisinho amarelo...Balançava a cabeça pra cima e para baixo, como se estivesse assistindo ao seu programa de comédia favorito. Tudo bem, era só ignorar. Mas eu ousei a olhar pra ele novamente. Foi aí que ele levantou a sua mão esquerda e desenhou com o dedo indicador um circulo em sentido horário no ar... como se quisesse dizer o que eu deveria fazer, na baliza. Eu entendi na hora o sarcasmo. Bom, quero dizer, entendi COMO sarcasmo.

Ah, queridinho... mexeu com a pessoa errada, na semana errada. E foi bem nessa hora que eu senti um calor subindo pelo meu pescoço e se espalhando pela minha face e orelhas. Enruguei a testa, mordi os lábios e não me contive. Abri a porta do carro, deixando-o ligado e estacionado bem na diagonal da vaga. Tranquei o trânsito atrás de mim. Saí do carro e olhei bem nos olhos do tiozinho, este demonstrando uma certa cisma. E disse:

"Oi... Tá engraçado né... é né... engraçado... vamos fazer o seguinte, vamos? VOCÊ DIRIGE O TEU CARRO, QUE EU DIRIJO O MEU, PORRA!".

Bem feito. Ficou constrangido, arrancou o carro aproveitando convenientemente que o farol tinha acabo de abrir e foi embora.

Um grupo de senhoras do outro lado da rua me aplaudiu. Estacionei meu carro bem precisa e vagarosamente. Liberei o trânsito. Ganhei o dia.