terça-feira, 28 de outubro de 2008

O mal de todos os males.



Eu sofro de um mal. Não é uma doença rara, mas não tem cura. Não mata ninguém, pelo contrário. Te consome. Te tira do sério. Te faz esquecer quem você é. Seus valores, sua doçura, sua educação, seu amor próprio. Sua razão. Muitas vezes, chego a pensar que pode ser pior que qualquer outra doença.

Com outras doenças, você, cedo ou tarde, sabe o que vai te acontecer. Vai morrer, perder um braço, a visão, engordar demais ou de menos... Um médico aí te dá uma explicação. Tem estudos, tem cura, não tem cura. Não, não quero nada disso. Nem pra mim, nem pra ninguém.

Mas o meu caso é o seguinte. Não tem explicação. Quando vou ao médico e digo: "Quero uma explicação! Preciso de ajuda!", recebo uma cara de interrogação e um sonoro "Não há nada que possa fazer para ajudá-la" em troca. Grande porcaria esses diplomas que vocês tem então. Mestrado, doutorado, pós e vivência no exterior e o caralho a quatro e ao cubo. Uns adoram dizer que é frescura de mulher, outros dizem que preciso diminuir o sal, o café, o chocolate, para minimizar os efeitos. Mas ninguém sabe ao certo o que pode me ajudar. À merda todos as suas qualificações então, se não conseguem eliminar a "frescura" que dizem que tenho.

É muita coisa pra descrever. Primeiro começa com uma irritação. Tudo irrita. Coisas que não te irritam usualmente, passam a ser completamente irritantes. Os programas de televisão, as conversas das pessoas na rua... todas parecem muito estúpidas pra ser verdade. Dá vontade de mandar todo mundo calar a boca. A sua aparência é o maior alvo de suas auto-críticas. Tá tudo errado! Inchado, dolorido... doem muito as pernas e os seios. A pele fica sensível e irritada. Cólica, daquelas que te deixa de cama e abaixa a pressão. Enxaqueca de dar ânsia. Você toma um chá novo aí, óleo de prímula, buscopan, neosaldina. E apesar de tentar controlar a alimentação, trocar a sua dieta por algo mais leve, com pouco sódio, açúcar, ácidos... é exatamente o que te faz mal que você mais precisa. É o que te conforta.

Uma hora a irritabilidade emocional se transforma em euforia. Dá vontade de acordar cedo aos domingos, sair correndo e fazer mil coisas! Pra daqui algumas horas, você ficar com uma raiva incontrolável do mundo novamente. Aí, dá vontade de chorar. Tudo é triste. Os comerciais de margarina são as coisas mais lindas já criadas pelos homens! Ninguém gosta de você. Tudo que você fez e faz não tem valor. Não tem apreço. Você se acha a pessoa mais infeliz do mundo.

A casa que está suja, mas o corpo tá muito cansado e pesado pra fazer qualquer coisa. O filho da puta do cachorro da vizinha que não pára de latir. A família que não deixa de te azucrinar, pois tudo que sugerem é revertido na sua cabeça por azucrinação mesmo. O dia que tá muito quente, ou muito frio, ou chovendo demais. A televisão que não passa nada de interessante. Os livros todos que te dão tédio. Os amigos, o namorado, que não te aguentam mais, pois nada que falam te consola... Você tem que ir trabalhar com todas as dores que sente, e fingir que está tudo bem, pois é frescura sua. Não é? Quem tem frescura, não consegue se manter no mercado, ter respeito de seus colegas, e médico nenhum dá atestado para frescura.

É muita confusão pra uma pessoa só. Parece até o expresso para o fim do poço. Uma verdadeira montanha russa. Só que preciso ter paciência, porque quando menos espero meus sintomas desaparecem. Nem lembro mais porque estava tão mal-humorada. Imagina! Impressão sua, meu bem. Não lembro de ter sido grossa, nem de ter te mandado a lugar algum! Por que estão todos tão ofendidos? Eu que tenho dores todos os meses e vocês que ficam bravos? Pois saibam que o que tenho não se controla. Não é um botão de liga e desliga que é ativado para minha conveniência. Já deixo avisado para quem me conhece, que existirão dias que eu não serei bem eu. Não me responsabilizo pelos seus possíveis danos morais. E por favor, não me contrarie, porque bem hoje, a irritação começa a subir pelo pescoço e explode na cabeça (geralmente na forma de diarréia verbal).

Existe uma forma de me deixar mais calma. Já que tudo dói, uma massagem de leve, por favor. Nas costas e nos pés. Um chá. Ou melhor, uma infusão de erva-cidreira. Um colo, mas só quando eu solicitar. Um filminho as vezes vai bem... com sorvete! Não vem me pegando, porque vai levar na cara. Tem que ser com cuidado... Me elogie bastante também. Mesmo que de pijama e com o cabelo num birotinho ridículo. Diga que sou a pessoa mais linda e inteligente desse mundo e me lembre que logo logo, tudo isso vai passar. Mas cuidado pra não falar demais, se não... já sabe. Deixa eu te xingar a vontade. Tenho que descontar a minha raiva! Tudo bem, eu xingo sozinha de qualquer forma, mas se tiver alguém ouvindo, melhor ainda! Mas por favor, não leve a sério, porque eu também não estou falando sério.

Não, não preciso ser enjaulada. Sou mulher, e sofro de TPM.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Padaria e Papagaio

E paulistano adora uma padaria.

Todo mundo sai de casa com aquela pressa descomunal, se atropelando, rezando pra não perder o ônibus, pro trânsito não ser pior que já é, pra não ter nenhuma manifestação na rua... e deixa pra tomar café na padaria mais próxima do trabalho. 

Mas a pressa é só uma desculpa. São Paulo tem lindas e deliciosas padarias. Ir a uma padaria para tomar café da manhã é um precioso ritual. Não existe melhor forma de começar o dia.

Eu sempre fiz isso. Sempre deixei pra tomar café da manhã numa padaria no meio do caminho. Da faculdade até o trabalho, sempre encontrei lugares decentes, mais ou menos limpos... não que uma padaria tenha que ser nota dez pra Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), porque, no final das contas, nenhum estabelecimento de Alimentos e Bebidas é 100%, e isso eu posso afirmar com toda a certeza e frieza do mundo.

Quer ter certeza que a sua comida é micróbios-free? Não saia de casa então. 

Mas para tudo existe um limite. 

Digo isso pois, de todos os lugares que eu já fui, incluindo aquele restaurante Chinês na Liberdade, que só Deus sabe qual é o nome, e que se eu bem me lembro tem galinhas vivas circulando pela cozinha e detergente Bombril para os clientes lavarem as mãos no banheiro, nenhum, nada nesse mundo, se compara a padaria da Rua Rocha.

A padaria da Rua Rocha não é a única padaria da rua, mas é a única no meu caminho. É uma padaria suja. No sentido mais amplo da palavra. Daquelas com caixas de garrafas de cerveja vazias e sem utilidade empilhadas no meio do caminho. Com cartazes de preços feito com caneta bic. Com pedaços de papelão espalhados pelo chão com as pontas roídas. Com panos sujos de gordura carbonizada esquecidos no canto da chapa. Com os atendentes de unhas compridas. Com restos de comida caídos pelo chão e que não vêem uma vassoura desde... nunca viram. Com seus pães, biscoitos e doces empilhados em uma vitrine escura e encobertos por "misteriosos" pontinhos pretos (estou tentando decidir se é de barata ou de rato). Com produtos de geladeira abertos na bancada, e que não tinham intenção nenhuma de voltar para a geladeira. Com muitos, e muitos, e muitos, buracos e fendas nas paredes e tetos.

Um dia desses, alguma coisa pingou em mim, e não era água.

Eu acabava parando na padaria pra pegar algo enlatado, pois o risco de contaminação dessa forma seria igual a de qualquer outro lugar. Um suco, um achocolatado... nada de mais. Até então, nada me ofendia...

Mas hoje foi a gota. Saí destrambelhada de casa e esqueci minhas frutas para comer no trabalho, e num ato de desespero parei na padaria e pedi um "pão na chapa". Muito ansiosa para que fizessem logo o pão e eu pudesse sair de lá o mais rápido possível, assim que recebi meu pão num saquinho, vi a cena mais curiosa.

Um papagaio na bancada.

Um papagaio na bancada e todos os atendentes da padaria fazendo cafuné nele. Um papagaio na bancada e todos os atendentes fazendo cafuné nele enquanto faziam os sanduíches, pães, cafés e sucos que outros clientes pediam. Um papagaio na bancada e todos os atendentes da padaria dando de comer ao papagaio. Um papagaio na bancada e todos os atendentes da padaria celebrando a visita diária do papagaio.

Um papagaio na bancada de uma padaria.

Não, mais uma vez: UM PAPAGAIO NA BANCADA DE UMA PADARIA.

O papagaio havia sido trazido por um cliente. E pelo que compreendi, sempre leva o papagaio para beliscar alguma coisa na padaria.

E eu, perdi a fome pelo resto do mês. E já comprei bactrim só pra garantir.




sexta-feira, 17 de outubro de 2008

What woman want

Durante toda a minha curta experiência profissional eu trabalhei em ambientes dominados por homens. Pra quem sabe, mesmo depois da "revolução gastronômica" no Brasil, as cozinhas continuam sendo, e sempre serão dominadas por homens. É um ambiente rude, pesado e estressante, que não tem espaço para frescura, fraquezas, vaidades nem feminilidades. Podem até discordar, porque cozinhar em restaurantes contemporâneos envolve criatividade, estética e delicadeza. As mulheres possuem isso naturalmente, mas não aguentam o trabalho. Pelo menos não na sua forma mais bruta. E as que aguentam, como eu aguentei, apresentam a mesma falta de vaidade. Só sabem que somos mulheres na cozinha, porque o uniforme é mais justo.

O meu dia a dia era dentro de meu uniforme surrado e meus coturnos, cabelo preso sem vaidade nenhuma, unhas bem curtas. Semblante sempre sério, rígido, precisava demonstrar que era mais forte do que os 8 homens que eu liderava. Falava mais alto, olhava nos olhos, disciplinava da forma mais justa que podia. Conquistei o respeito da equipe muito fácil. Todos trabalhavam juntos, e por mim. Não tolerava intrigas, fofocas nem briga de egos. Manti o ambiente mais saudável que pude, e vou levar essa experiência para o resto da minha vida. Mas não tinha sossego. O estresse era constante, por todo e qualquer motivo. Passei a ranger meus dentes durante o dia. 

Quando os meus dias de chef não mais me bastavam, resolvi que era hora de mudar para algo diferente. Larguei as cozinhas de vez, sem olhar para trás. Não sinto saudade do trabalho. Hoje, depois que a tempestade passou, sei que dei o melhor de mim e fiz um trabalho do caralho, sem falsa modéstia. Encontrei o meu sossego num ambiente que sempre quis fazer parte, mas não tinha a maturidade necessária para tal : importadora de vinhos.

Durante meus dias de chef, aproveitei para estudar vinhos. Esse também é um mundo dominado por homens, são eles os detentores do conhecimento sobre os vinhos e os maiores compradores. Preciso admitir aqui que o mundo dos homens sempre me fascinou. Sempre tive o ímpeto de participar de suas conversas, das rodinhas de charuto-conhaque-política-vinhos, e mostrar que o que eles sabiam eu também sabia, que era diferente e que podia. Não porque queria ser um deles, mas porque seus assuntos sempre me pareciam mais úteis e interessantes do que o das mulheres (nota: exclui-se aqui os assuntos relacionados a futebol e grosserias sobre mulheres).

Enfim, há poucos meses iniciei minha carreira neste mundo intelectual, refinado e exclusivo. Neste país, quem sabe alguma coisa sobre vinho, já é tido como diferenciado (nota: a verdade é que a maioria não sabe porra nenhuma, e ainda utilizam os seus escassos artifícios para tentar impressionar alguém, quando na verdade o que está fazendo é causando um grande constrangimento para todos os envolvidos). O que quero dizer, é que minha vida, nos último 3 meses, se viu de pernas para o ar.

Explicado o contexto do meu drama, passo a narrá-lo de fato. Um dia, estava eu dentro de uma cozinha de coturnos e uniforme encardido, e rodeada por homens. No dia seguinte, literalmente, me vi em um ambiente formal de escritório e...cheio de mulheres! No primeiro momento, nada de mais me ocorreu. Não me intimido fácil. 

Um desses dias, ao atender um cliente ao telefone, ele me indaga, aos risos :

"- Mas que barulho é esse aí? Por acaso vocês estão reformando a loja?"

Levei alguns segundos para entender que ele se referia ao barulho que o salto alto da mulherada faz no chão de madeira. A minha mesa fica em um local de passagem, então todos os saltos ecoam no meu telefone. E foi a partir daí que entendi que minha realidade era outra: estava rodeada de MULHERES FEMININAS! 

Mulheres de salto alto, saias coloridas, fofocando sobre seus namorados, se maquiando em frente aos seus computadores, lixando as unhas, trocando dicas sobre as melhores marcas de silicone para os cabelos e shakes dietéticos. Fiquei zonza por alguns minutos. Tive um ligeiro ataque de pânico e acho que até taquicardia. Saí para beber água, fechei os olhos por alguns segundos...e meu Deus do céu! Mais mulheres.

Elas são impecáveis. Cabelos sempre muito bem arrumados, maquiagem, roupas da moda, sapatos para cada dia da semana. E lembrando do meu passado, nunca precisei me vestir bem para ir trabalhar. Comprei uma meia dúzia da calças sociais, um sapato preto de bico fino, camisas e desenterrei minhas jóias. Por alguns segundos, até achei que conseguiria levar a vida com roupas mais sérias. Não me reconheci. Achei melhor deixar pra lá.

(Não me entendam mal. Não estou aqui escrevendo sobre futilidades... e sim admirando a feminilidade dessas garotas, que trabalham muito e sério, sem sair do salto!).

Incrível. Acho que estava vivendo um grande hiato. Lembrei de como era minha vida até a faculdade, quando ainda não trabalhava. Tinha muitas roupas, sempre achava os lugares mais diferentes para comprar. Não podia ser nada da moda, que qualquer um encontrasse. Tinha meus brincos, broches, colares, lencinhos, sandálias melissa, plataformas... meu cabelo sempre exigiu pouquíssimo cuidado e nunca usava maquiagem. Mas mesmo assim, era feminina. E por mais incrível que parece, cheia de personalidade.

Quando foi que deixei de investir em mim mesma? Minhas roupas passaram a ser mais práticas, e o coturno, meu calçado mais fashion, ficou tedioso e virou parte do meu dia a dia. Me vi perdida no meio da multidão, e não destacada, como costumava ser. Fiquei apática. Sem inspiração. E mesmo quando me arrumava, tentava manter o mais casual o possível... sempre tive a maior vergonha de demonstrar vaidade! Como se a vaidade me transformasse em uma pessoa fraca.

Parece que encontrei na minha rotina uma forma de não olhar para mim mesma. O trabalho me consumia e era a desculpa perfeita para não "ter tempo para essas coisas". Não que a convivência com essas meninas me fez querer ser igual a elas. Simplesmente, acho que acordei que, talvez seja a hora de parar, respirar e... cuidar de mim. Nunca tive tempo livre... acho que é isso que as pessoas fazem quando têm algum tempo livre. Cuidam de si...

Nas últimas semanas andei testando algumas coisas... fiz as unhas, massagem, fiz compras para mim e para minha casa (que encontrava-se em estado de ligeiro abandono), comprei um esfoliante para o corpo, máscara anti-cravos, sabonete especial e tônico facial, hidratante oil-free, uma bacia novinha e essência de alecrim para fazer um escalda-pés... e sabe que nem doeu?

O cabelo continua daquele jeito que se conhece. As unhas, não deu. Bem curtas e sem esmalte, é como prefiro. O coturno foi substituído por uma bota de montaria clássica, sem salto. Os brincos, resgatei antigos e flertei com novos. O mesmo para os colares...

Não sei... mas acho que posso até gostar dessa coisa de ser feminina...