sábado, 28 de março de 2009

Desisto eu de mim mesma?

Faço 1/4 de século este ano. Daí é nessa época que você começa a fazer uma balanço na vida. A verdade é que, apesar das brincadeiras, nunca me importei muito com a idade. Sempre me acharam "muito madura e muito precoce", seja lá o que isso queria dizer. A verdade é que eu sempre fui... eu.
Lembro da minha infância com muita saudade. Criança feliz, amada pelos pais, me divertia com muito pouco, dava risada de tudo e de todos... Sem complicações. Sem preocupações. Bastava um pincel, tinta e papel e eu me tornava a pessoa mais realizada do mundo. Acordava muito cedo, tomava café com o pai, dava um beijo na mãe antes de sair para a escola, acompanhava o irmão até a entrada do maternal. Estudava. Esperava a mãe ir buscar na escola. Voltava pra casa. Hora do almoço. Hora de brincar. Hora de brincar na casa das amigas... Hora da natação, da aula de arte, de dança... mas não tinha obrigações. Menina educada, obediente, criativa, inteligente, bondosa, esforçada, amiga. Mas como nada era perfeito, sabia muito ser geniosa e mimada... Tinha facilidade para aprender quase tudo que quisesse fazer, mas se fosse assim tão complicado, desistia para fazer algo mais fácil e que eu pudesse fazer melhor.



Entra a adolescência e a minha batalha contra os hormônios. Aos 12, 13, 14, 15 anos... Escola, cursos de inglês, de espanhol, aula de artes, hipismo... Preferia ficar sozinha, era essa a verdade. As amigas continuavam lá, mas não sei... eu não entendia elas. Não me entendia... tinha alguma coisa de errado comigo, porque não gostava das roupas que todo mundo usava, nem das músicas, nem das novelas... não me restava quase nada. Aí eu tentava... Mas o resultado foi sempre muito desastroso. Acabava virando um espectro de mim mesma, com uma aparência que não era minha, com roupas que não eram minhas... até que um dia resolvi fazer do meu jeito. Tomei coragem. E foi muito mais difícil. Recriminação, ridicularização. Garota estranha, feia, sem jeito, sem tipo... "por que não se esforça para melhorar essa aparência?". Foi aí que aprendi a defensiva. Não aceitava os clichês, e não tinha ninguém que me provasse o porquê o de todo mundo era certo. Brigava demais, nossa senhora... aí, mais recriminação. Me sentia muito sozinha. Ninguém partilhava das minhas idéias. Eu sabia do que podia fazer, até onde podia chegar. Tinha forças, tinha coragem. Enfrentava sem medo nem dó. Mas doeu demais... ficou muito mais difícil... aí era melhor mesmo ir para algum lugar onde ninguém ia me conhecer. No qual não precisasse falar com ninguém. A única coisa que pedia a qualquer força cósmica que pudesse atribuir algum tipo de grandeza era que eu fosse EU novamente. Só isso. O que não aconteceu, porque ainda estava muito machucada. A defensiva virou parte da minha personalidade. Mas sempre gostei de ficar sozinha... não era nem que não ligava, simplesmente... curtia... Mas não sinto saudades. Nem da escola, nem dos amigos, nem de nada. Foi a época da pressão social... "decida-se, resolva-se". A impressão era que qualquer decisão seria definitiva. Aprendi assim. Momento crucial. Daí pra frente, todas as decisões viriam carregadas de consequências. Eu tinha 16 anos, e engoli a seco. Como os adultos deveriam fazer, não era?

Aprendi a disfarçar a defensiva em outras coisas. O novo eu pós-adolescência era alguém muito, mas muito confiante. Entrei na faculdade tendo certeza do que queria. Era a líder nata. Tudo era muito fácil. Os desafios foram mais no campo dos relacionamentos interpessoais do que qualquer outra coisa. Ninguém me dobrava, ou me tocava, ou me emocionava. A defensiva era muito mais constante. Experiências negativas só eram absorvidas, e nunca esquecidas. Mas eu finalmente tinha a cara que tinha que ter. O cabelo ficou da forma que sempre quis que ficasse. Sem muito esforço. A pele ficou boa, do jeito que sempre quis que ficasse. Só precisou de paciência. As roupas e idéias era minhas e só minhas. Esta deve ser a época da vida na qual tudo de repente fica tão claro! Era a fase da invencibilidade. A minha energia era invejável, ninguém tinha o mesmo pique. A preocupação era estudar para conseguir um trabalho, e trabalhar mais e mais e mais... A mais inteligente, a mais versátil, a mais descolada. Arrumava tempo pra arte, pra música, pra dançar, pra ver filmes. Fazia o tempo render. Respostas na ponta da língua. Multi funcionalidade. Balada o tempo todo... facilidade para conhecer pessoas... Nossa, conhecia muita gente... Aquela época da vida que você consegue ir a todas as festas... a época do desapego às coisas e pessoas. Bons tempos...
A faculdade deixou saudades por um tempo porém. Mas acho que agora já passou... O estudo continua sendo muito importante na minha vida, mas as preocupações são outras... É a época da reflexão... penso então em tudo que fiz, e mais ainda no que poderia ter feito... Se tivesse tido mais tempo as escolhas teriam sido diferentes... queria tanto ter feito aquilo outro, queria poder voltar atrás. O trabalho agora é mais importante... me esforço todos os dias, mas ainda não é o suficiente. Está longe do ideal. Muito longe... mas parecia que eu queria tanto isso... Manda e-mail, faz sugestão, carta de pós venda... todos os dias, o dia todo. Cabelo arrumado, maquiagem, roupa social. A cozinha virou escritório, as panelas, computador e telefone. Não sinto falta das panelas. Pouco tempo pra livros, pra filmes, pra música, pra arte. Nem lembro mais do que gostava, mas quando lembro é tão bom... Quando foi que isso aconteceu? Menina chata, ciumenta, sem conteúdo, sem graça, sem criatividade, sem assunto, chorona, dependente. Não gosto desse meu eu. Não sei também como me livrar disso. As vezes é preciso que um estranho me lembre do meu potencial e me diga que não posso desistir de mim mesma. É a época do "cadê minha auto-estima mesmo?".Os amigos são tão poucos agora, mas o que ficaram são de verdade. As vezes precisam se esforçar pra me reconhecer... E quando reconhecem dizem " mas que saudade de você! vê se não some mais...".
E eu, me disseram a pouco que preciso me esforçar mais. Me esforçar mais para estudar melhor. Me esforçar mais para reencontrar os amigos. Me esforçar mais para controlar o temperamento... Me esforçar para voltar a fazer trabalhos manuais... Porque quando adulto, tudo fica mais difícil mesmo. As coisas simples não são tão simples assim mais. E eu quero tanto... e estou me esforçando... uma recaída aqui e outra alí e as vezes dá vontade de desistir... deixar pra lá mesmo, está tudo tão difícil... por que tem que ser tão difícil assim? Mas quando eu tento, é tão bom... e eu sou eu novamente... Só tenho que tentar mais vezes, me esforçar para lembrar que eu tenho que me esforçar. Que nada que é bom vem fácil. Que os relacionamentos que valem a pena, que são verdadeiros, dão trabalho. E que a única coisa que não posso fazer é desistir de mim mesma.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Novela dos outros

Cara conhecida,

Digo "cara", porque gosto de fazer uso da educação e "conhecida" porque não te considero uma amiga há muitos anos já. A cada dia que passa e tenho notícias suas fico injuriada. Pelo jeito ninguém nunca teve coragem de te falar nada na cara. Nunca soube ao certo o porquê dessa cautela toda, mas ultimamente acredito ser por dó. Ah, você teve um final de adolescência conturbado e um início da vida adulta tendo que lidar com assuntos que iam muito além do seu grau de maturidade. A rainha da sociedade medíocre na qual crescemos padeceu, não foi?

Claro que não, porque seus pais te protegeram, da mesma forma que qualquer um com as condições deles protegeriam. Não que você mereça. 

Porque a verdade é que você não merece. Tudo falta em você. Pra mim você é uma pessoa essencialmente escrota. Hum, acho que esse adjetivo ninguém nunca tinha usado para descrever você. Você é sim uma pessoa escrota, desprovida de qualquer senso de elegância, educação, finesse e diplomacia.

Acha que não ter "papas na língua" é uma qualidade, não é? Ah minha cara... isso é sim um defeito dantesco. Só mostra o tipo de pessoa vulgar que você é. Sim, porque a sutileza dos modos é algo que vem de berço, mas infelizmente você não teve ninguém que ensinasse isso para você. Cada vez que você abre a sua boca, é como se uma diarréia verbal fosse jorrada a cada pobre espectador seu.

E eu aqui. Tento ser a pessoa mais delicada e compreensiva do mundo, cada vez que tenho a infelicidade de te encontrar. Se da última vez que nos encontramos eu tive alguma consideração por você, foi na verdade pela sua família. Pela amizade que seus pais mantém com os meus pais.
Mas ao contrário de mim, você fez questão de me atacar de todos os lados. Todos os seus comentários foram rudes e desnecessários. Parece que cada vez que você encontra alguém que te ameaça de alguma forma, você precisa se auto afirmar, não é?

Diz a todos como você está bem, e linda, e poderosa, e namorando, e apaixonada, realizada profissionalmente... Mas faz questão de lembrar das minhas "humilhações" pessoais no meio de uma reunião social. Claro, porque sabia que a última coisa que eu faria seria te colocar em uma posição ruim, na frente de tanta gente amiga.

Pois fique sabendo que agora eu aprendi a lidar com gente como você. Eu uso o princípio da reciprocidade. A cada vez que você disser uma grosseria, eu vou fazer questão de te lembrar que você está sendo grossa. Já que você não tem consideração, eu também não terei. Não tenho mais dó de você, porque você não merece nenhum sentimento meu. Você não merece que eu te dirija a palavra, nem ao menos que eu olhe para você.

Os seus amigos não são amigos de verdade. Querem te ver pelas costas. Opa, eu acho que dessa você não sabia... sim, te acham muito infantil, insuportável e narcisista. Deve ser muito ruim não ter amigos.

Minha cara... a sua vida não me interessa, então pára de querer me contar! Nem eu nem ninguém se importa com o que você faz ou deixa de fazer na sua existência mal resolvida e insignificante. A sua vida não é uma grande novela das oito a qual todos assistem e sabem e lembram de detalhes.

Ninguém se importa. Ninguém nunca se importou. Ninguém quer se importar. Me deixa em paz, tá?

E eu, que odeio novelas...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Vinho

Estou tentando lembrar como foi que começou meu interesse por vinhos. Acredito que não teve nada de romântico como muitos contam sobre si por aí, em uma linda viagem à França, em grandes heranças de família, consumindo somente os melhores.

A minha, como gosto de idealizar, foi algo simples. Nasceu de uma curiosidade infantil, pois meu pai ao construir a nossa casa mudou completamente a planta ao fazer uma adega subterrânea para acomodar os seus vinhos. Meu pai entretanto não é grande conhecedor. Seu conhecimento é simples, sem vícios, sabe do que gosta e ponto. O que na minha opinião o torna mais sensato do que a maioria dos enófilos pois é desprovido de preconceitos. Prova de tudo e encontra a beleza de cada um. Dá igual importância a tintos, brancos, rosés, espumantes e licorosos, sabendo que cada uma tem seu lugar, seu dia, sua hora, sua comida.

Eu adorava descer naquela adega. Quando criança achava que era um mundo misterioso, pois ninguém era autorizado a mexer nas garrafas de meu pai. As prateleiras, as taças, a decoração... era tudo muito diferente.

O consumo em família era limitado aos infantes da seguinte maneira: primeiro, vinho diluído com água e adoçado com açúcar, depois espumantes para brindar em ocasiões especiais e a frutada sangria. Não se conhecia seu verdadeiro valor histórico e artístico. Era somente uma bebida comum e apreciada por todos. Não teve nada de tão extraordinário beber um espumante no meu aniversário de 15 anos em casa, quando para minhas amigas era simplesmente um absurdo e também uma grande farra!

Pouco antes de entrar na faculdade, tive meu primeiro contato com o mundo da enologia. Foi na serra gaúcha, em uma das viagens anuais ao Rio Grande do Sul que minha família costumava fazer. A indústria de vinhos finos finalmente começava a despontar no Brasil. Foi a primeira vez que ouvi falar em análise técnica do vinho, de aerar, discutir sabores, aromas e impressões. Me interessei... não iniciei estudos profundos, mas definitivamente passei a beber mais vinhos...

Já na faculdade, a matéria enologia entrou para a grade curricular obrigatória. Como o meu interesse para a área de alimentos e bebidas aumentava a cada ano, comecei a buscar cursos e literatura a respeito. A partir daí, ingressei em outra faculdade tendo em vista aprender mais e quem sabe um dia trabalhar nessa área. Tive excelentes mestres. As aulas eram todas uma viagem, um banho de cultura e história! Entretanto, a minha faculdade sendo pioneira no assunto possuindo de fato os melhores profissionais, esses se revelaram muito arrogantes. A impressão que transmitiam era a de que a pretensão e a esnobação desenfreada eram características necessárias para se tornar um profissional especialista em serviço e crítica de vinho. Talvez tenha sido esse o motivo que me fez adiar trabalhar nessa área durante tanto tempo... Bom isso e a pouca idade. Por algum motivo, conhecimento de vinho nesse país são restritos à idade e sexo. Ou seja quanto mais homem e velho você for, mais deve conhecer sobre o assunto. Favor calcular o respeito adquirido então por uma jovem de 20 anos...

O tempo foi passando e eu sempre dei um jeito de colocar os vinhos no meu trabalho, até que consegui fazer dele o meu trabalho atual. Mas todos os dias eu me pergunto, pra que tanta pretensão? Aqui na importadora eu vejo de tudo. Grandes conhecedores e grandes ignorantes sendo os últimos muito mais abundantes. E isso porque informações a respeito estão mais disponíveis e acessíveis do que nunca. Enochatos eu desprezo bem como os fulanos que sentam na minha mesa e dizem "veja bem, minha cara, deixa eu te ensinar uma coisa: vinho de "corte" é um vinho ruim que tentaram melhorar com outra uva".

Acho que o brasileira encontra no vinho um excelente antídoto para o seu ego frágil, ou como diria o bofe, para a "síndrome de coitadismo". É um assunto difícil, elitista e romântico e portanto faz melhor aquele que algo conhece. Conquista a garota, a atenção e apreço de todos na mesa, status. Te dá o direito de humilhar o garçom. E se o garçom acha que entende de alguma coisa, pode ter certeza que vai descontar o dele. Nossa... a bebida dos deuses e da discórdia.

Contudo, o vinho continua sendo algo simples para mim. Hoje eu conheço melhor e reconheço o seu valor. Sei um pouquinho de suas complexidades e nuances. Valorizo mais. Não discuto com a ignorância, não critico em vão, explico quando me perguntam e simplesmente amo quando posso provar aos outros que seus preconceitos e conhecimentos são tão equivocados quanto suas gravatas e scarpins.

Gosto de uma taça em casa para refletir, mas prefiro compartilhar. Harmonização é meu forte e como meus vinhos, descomplicadas! Não gosto de padrões, generalizações, tendências. Não tenho um vinho preferido, mas sim um especial para cada ocasião. Não enumero aromas exóticos. Não fico rodando a minha taça como se fosse um tique nervoso. Não vanglorio vinho caro.

Meu lema é o seguinte: vinho é mais simples do que você diz e mais complicado do que você sabe.