quinta-feira, 30 de abril de 2009

O Futebol, na minha vida


Quase todo mundo que conheço possui algum tipo de bloqueio mental... Tipo conhecimentos básicos em geografia, cozinhar, parar em pé, praticar esportes, pronunciar palavras em línguas estrangeiras corretamente... Mas normal, não dá pra ser bom em tudo...

Eu tenho um bloqueio, as vezes bastante difícil de conviver e ser ignorado. O bloqueio é a Paixão Nacional. É o "circo" do conceito romano-político "pão e circo" aplicado no Brasil. É a razão de viver de desocupados e workaholics. É talvez o único esporte capaz de quebrar rivalidades étnicas e colocar tutsis e hutus no mesmo campo pra uma "pelada". Futebol... Ah, o futebol! Qual outro esporte é praticado em todo e qualquer canto do mundo? Mas, baixando o nível agora... puts, cara, então... não dá. Eu não consigo. Não consigo gostar , não consigo assistir e, mais desafortunadamente, não consigo entender futebol! Bloqueio mental. Ponto.

E olha que não foi por simples negligência.

Quando criança me batizaram corinthiana para agradar o vovô. Claro que pra mim isso não significava grandes coisas, até que me disseram que para ser corinthiana eu tinha que assistir aos jogos de futebol do time e ter a camisa (bem como vestir a camisa, nos dois sentidos da palavra). Jura? Puts... vamos lá então. Jogo na casa dos amigos, da família... que coisa mais chata... E usar a camiseta do Timão? Mas nem a pau... completamente desprovida de estilo e elegância... não dava pra usar com nada! Mas alguma coisa deveria ter de errado comigo então... Todo mundo gostava e eu não... De repente, o problema é o time... fiquei de escolher outro, mas até agora nada...

Copa do mundo. Todas as nações ligadas na televisão, torcendo num clima de rivalidade "X Guerra Mundial" saudável... O sentimento de patriotismo é mais forte do que nunca! Todos defendem seus países com unhas e dentes! Brasileiros são mais brasileiros! Vamos todos torcer e sofrer junto com o time em campo! Xingar o juíz! Fazer um "ôla"! Jogar confeti na rua! Gritar GOOOOOOOOLLLLLL!!!!! Cadê a Talitta? "Oi? Hã? Gol de quem? Ah, o Brasil tá jogando?Poxa...". Hum... o primeiro tempo até que foi, mas o segundo... Prefiro minha parte em Champagne, por favor...

Times, Campeonatos e Jogadores? Eita... LBU, LDB sei lá o quê... Clube Internacional Colorado, Grêmio X, CAP-Atlético Mineiro... ou Paranaense? E o "C" é o quê mesmo? Juventus, Juventude, Copa do Brasil, Brasileirão, Paulista, Gaúcho, Mineiro, Libertadores, Manchester, Celtics, Barça, LA Beckham (huuuummm, o Beckham!), Dentinho, Maicosuel (mas que po*** é essa?), Dagoberto, D´Alessandro, Ri(Bi)charlyson afe... Ah, não. Tudo muito complicado. Pra mim é mais fácil entender o conflito na faixa de Gaza.

E as pérolas? Se dizem que são raras as mulheres que entendem de futebol e que não falam bobagem, imaginam as que não entendem e que possuem um bloqueio mental como o meu? Frequentemente, consigo proferir algo parecido com "por que não passam a bola para aquele de preto?". Ontem mesmo, segundo testemunhas que precisaram espalhar a minha ignorância Brasil a fora, comparei o Arena da Baixada com o Canindé da Portuguesa... o melhor do Brasil com o Canindé... fez tanto sentido na hora...

Futebol nunca significou muita coisa pra mim. Ninguém na minha família é fanático. Nunca nem ao menos debatemos o assunto. E obviamente a minha inclinação natural não vai pra esse sentido. Vou no sentido oposto da massa, como sempre. Não gosto do que todo mundo gosta! Falo bobagem mesmo, e pronto! Não domino o assunto, da mesma forma que quem não conhece vinho fala atrocidades! Não vou ao estádio pra ver homem! Não sento pra ver o jogo fingindo que estou gostando! Futebol para a Talitta é sinônimo para trânsito e confusão perto de casa, arruaceiros na rua, amigos e namorado enclausurados, e muito de-vez-em-quando, comilança na casa da minha mãe.

Ao Brasil varonil, peço desculpas por ser uma cidadã tão desconcertante e atípica. Aos amigos, escusem a minha ausência durante os churrascos de domingo (fiquei sabendo ontem que todo domingo tem futebol na Tv...). Ao namorado, coloco à disposição (sempre esteve!), a minha mais sincera, ignorante e desatenta companhia bem como petiscos. À minha família, já deixo marcada a próxima partida de dominó.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cinema


Adoro filmes. Desde pequena. Houve uma época da minha vida na qual a minha disposição e assiduidade ao cinema e locadoras de vídeos era muito maior do que hoje em dia. Cheguei ao ponto de ser ameaçada pelo namorado a perder a companhia para tal, pois mais dormia durante as sessões cinematográficas do que prestava atenção... isso quando não me vinha aquele ímpeto de, no meio do filme, hum, tergiversar ... Enfim, coisas da vida... Sempre gostei sem muitos critérios. Desde que o filme não fosse dublado, não estivesse inserido nas categorias "teen", e não tivesse a Cameron Diaz e o Rob Schneider (e alguns outros que não vou citar para que o texto não fique cansativo), estava valendo.

Nunca entendi dos aspectos técnicos. Sou uma entusiasta leiga! Sei do que gosto e pronto, da mesma forma que meus clientes "enófilos" gostam dos seus vinhos. É bom ou não é. E acredito que exista uma boa vantagem com relação a essa ignorância toda: pessoas leigas geralmente não se deixam contaminar por críticas alheias, por modelos pré-estabelecidos, por diretores, roteiristas, atores e afins muito consagrados e que logicamente somente conceberiam obras primas. Se você não gostou ou não entendeu é lento(a) ou sem cultura, ou ambos. Por exemplo, já vi uns filmes do Woody Allen que me provocaram nada além de sono. Ah, queridos cinéfilos... já sinto o bafo de vocês no meu pescoço por ter proferido praticamente uma heresia no seu mundo.... Da mesma forma que nem todo vinho francês é bom, nem todo filme do Woody Allen é bacana

E nem todo grande diretor consegue produzir filmes dignos de toda sua grandeza o tempo todo. Agora, me arrisco criticar um filme que vi no último sábado, do Oliver Stone, que aliás já produziu alguns fiascos homéricos... Não acredito que exista uma forma correta de apreciar um filme. Cada um tem sua visão, enfoque e objetivos distintos, que acredito serem eles baseados em preferências e experiências pessoais muito particulares. Eu tenho uma "pequena" tendência a quase sempre analisar o filme pela sua importância sócio-cultural, buscando uma forma de aproveitá-lo no meu pequeno conhecimento sobre relações internacionais.

"W.", aquele filme do fulano mencionado acima, deveria ser algo sobre a vida do presidente mais, digamos, descabido e desnecessário que o maior império capitalista já elegeu (duas vezes). De sua adolescência e fase adulta problemática e afogada no álcool à insurreição evangélica conservadora, George W. Bush Junior, o "Dubbie", o Bushie ou "Bushinho", fez tudo o que fez para, segundo Oliver Stone, agradar o papai. Francamente, não sei da veracidade histórica desses fatos, mas o diretor tenta mostrar por vezes a ignorância caipira do presidente imortalizada nos seus - divertidíssimos/ trágicos - discursos (eita, lembra até um operário aí do ABC paulista), como também a sua essência carente e desesperada por atenção e aprovação paterna.

O filme começa engajado em um discurso político interessante e recente, não precisando ser estudioso da área, mas sim espectador ativo das notícias sobre política internacional e guerras nos últimos 20 anos. É interessante nesse aspecto para aqueles que desejam lembrar como foi o desenrolar da guerra EUA-Iraque no pós 11/09 e os supostos diálogos sobre as estratégias geo-políticas adotadas pelo alto escalão do governo Bush na época. Mais uma vez, não sei o quanto fiel tudo aquilo pode ser, mas nesse aspecto o filme funciona. Deixa claro a negligência e até ingenuidade dos políticos envolvidos e também o quanto a capacidade "miliciana" do Iraque foi subestimada. Lembra que os EUA não estavam, e nem poderiam!, lutar contra a nação iraquiana inteira, pois o seu alvo inimigo era uma pessoa em especial (Osama Bin Laden, e cia.). Outro ponto que achei muito interessante foi terem mostrado o quanto Colin Powell foi estigmatizado injustamente. O papel de Condoleezza Rice estava aparentemente muito bem representado por Thandie Newton, no que dizia respeito à maquiagem, vestuário e cara de cheira-peido. De resto, todos os diálogos da personagem foram...errrr...hum... ridículos. De longe, a pior representação da atriz. Josh Brolin, como diria o namorado, "Meeeeeuuuu Deus...". Ok, os trejeitos, tiques, sotaque e olhar sem conteúdo eram impressionantemente fiéis, mas ao final do filme saí com aquela impressão de "vergonha alheia" com relação a esse ator. Ou talvez a própria figura do presidente era fraca... nesse caso, a atuação pode ter até sido brilhante, sendo que nada melhor poderia ser feito por Bushie... ou quem sabe eu (e + 99% dos terráqueos) já tem uma predisposição a não gostar de Dubbie, e Brolin foi tão fiel, mas tão fiel que me convenceu na pele do presidente e conquistou minha eterna antipatia.

Aí, entre a politicagem toda do filme também aparecem as peripécias da vida pessoal de Dubbie, que a meu ver não poderiam ser mais desinteressantes e banais. A devoção cristã durante seus anos de recuperação do alcoolismo, a conquista e casamento com Laura Picolé de Chuchú Bush, os problemas com os pais, a inveja do irmão... Tudo muito bobinho... tinha até uma trilha sonora de pianinho de Sessão da Tarde em alguns momentos cruciais dos dramas pessoais de Junior, que parecia uma tentativa pífia do diretor de sensibilizar os espectadores! Aliás, se pudesse dizer qualquer coisa a respeito de "tequinicalidades" sobre as quais ainda não tenho propriedade nenhuma para falar, diria que a edição foi bem fraca e os "closes" de Bushie rezando com seus comparsas eram no mínimo trágicos.

Mas aí, não ficou claro o que é que O. Stone queria com o seu filme... se era fazer uma sátira do presidente, se era fazer um documentário sobre a vida do mesmo, ou se era um draminha de quinta... a minha opinião é que ele, o diretor, se perdeu em algum lugar aí no meio. Ou quem sabe eu que fui lenta demais para perceber que a vida de W. era o que era, uma esculhambação generalizada e crente. Resumindo, Oliver Stone conseguiu fazer na minha opinião um filme tão ruim e confuso quanto o próprio presidente. 

Vai entender...