terça-feira, 26 de maio de 2009

The Couch




Estranha coincidência. De arrepiar a espinha dorsal.

Na época do neolítico, o namorado fez um curta-metragem intitulado The Couch. O filme tinha como personagem central um jovem que era obcecado por seu sofá da sala de estar das maneiras mais adversas e curiosas.

Já na era moderna o namorado fez uma reforma em seu apartamento, e para completar a reforma do novo ambiente, comprou novos móveis, entre eles, um sofá. Ou melhor, O Sofá.

O Sofá foi uma peça muito procurada, esperada, estimada e cara. Grande e confortável para aqueles domingos preguiçosos diante da TV. É de uma cor "cinza-azulada-clara". O tecido é um linhão, meio ecológico e artesanal, difícil de ser reproduzido em massa. É de estilo despojado, com uma capa que o cobre e deixa aquela sensação de aconchego e receptividade para aqueles que adentram a sua mais nova morada. É quase como se ele pudesse sussurrar "se joga...".

Adorei O Sofá. 

Um belo dia desses, querendo fazer um agrado e inaugurar o apê, resolvi fazer um jantar. Nem me lembro mais o que foi que cozinhei, mas deve ter sido um "filet au moutarde de Dijon avec risotto", e vinho para acompanhar. Escolhi um Tannat uruguaio. Daqueles bem concentrados de cor. Aliás, fazendo um parênteses aqui, foi provado cientificamente que a uva Tannat é a mais concentrada de todas. A que possui mais taninos (daí o nome), mais cor e mais antioxidantes (= propriedades que retardam o envelhecimento).

A cozinha do apê não estava completamente finalizada. Tinha a mesa para jantar mas não tinha as cadeiras. Logo, sobrou para fazermos nossa cena no Sofá. Montamos os pratos, abrimos o vinho e o servimos, e fomos para o sofá. Jantamos enquanto assistíamos a um filme qualquer na TV. Estava ótimo

Sempre sobra metade da garrafa de vinho quando terminamos o jantar. Aí, o jeito é beber tudo... no Sofá. Só que duas taças de vinho já são mais que suficientes para que eu perca minha coordenação motora e senso de espaço. Foi bem aí que o namorado fez um movimento brusco e eu me assustei. 

A taça de Tannat uruguaio extremamente concentrado de taninos em um movimento sinuoso e cheio de graça alçou um belíssimo vôo da minha mão. São nesses momentos que você vê a vida em câmera lenta. Pois eu vi, a taça de Tannat voar e rodopiar, e aterrissar justo no... justo no... no Sofá. Foram aproximadamente 200 ml de Tannat nas almofadas, capa e pé. Um terrível acidente.

A minha primeira reação foi congelar, ficar de boca aberta olhando o estrago e a cara do namorado. O namorado, teve igual reação. Acho que a sua educação o impediu de colocar pra fora tudo o que passou pela sua cabeça no momento. Mas, enquanto isso, eu tive a pior idéia do mundo : corri para a cozinha, peguei a Scotch-Brite e um sabonete branco, e comecei a esfregar o acidentado, com lado verde da esponja (!) e com todo o meu remorso. Esfreguei como se quisesse limpar todos os pecados do mundo. Ao final da limpeza, tinha tirado todas as manchas. No lugar das manchas, sobrou um "borrão" branco, ao qual atribuí ao sabonete. Pensei que no dia seguinte tudo estaria bem.

Pois no dia seguinte o borrão branco continuava lá no lugar das manchas de vinho. Foi aí que o namorado foi até a loja, em busca de uma luz que pudesse salvar o seu bem amado Sofá. Mas então voltou com a triste notícia de que eu tinha não só limpado as manchas como desbotado o tecido. Acho que no final de tudo isso o namorado ficou bem chateado, deu uma desabafada do quanto o sofá significava pra ele, que não mais iria acatar as minhas idéias esdrúxulas (sugeri tingir todo o sofá de preto), e ameaçou proibir toda e qualquer comida no Sofá. A única solução imposta foi a negociação de uma nova capa para o Sofá, e uma nova dignidade para mim.

Conseguiram um desconto na capa do Sofá e a mesma foi comprada. Isso já tem uns 4 meses, e a dita-cuja nunca foi usada. Está lá, guardadinha, em algum cantinho do novo apartamento temendo a minha presença. 

Tal qual o personagem de seu filme, o namorado deve ter pensado que só existiria uma saída para conservar o seu querido Sofá: o isolamento de todo e qualquer convívio social. E mesmo assim acredito eu que o Sofá não estaria livre do seu próprio dono, que é humano e cheio de falhas, ou seja, que também poderia derrubar comida e taças de Tannat.

E no final das contas, O Sofá segue lá na sala com algumas manchas brancas naquela imensidão cinza-azulada dele, igualmente atraente, confortável e me convidando  a "me jogar" toda vez que entro naquele apartamento...

Coincidência...