terça-feira, 27 de abril de 2010

Perguntas

O Heródoto hoje na CBN falou uma coisa pro Xexéo que me deixou a pensar cá com meus botões: "Ah, perguntar não ofende né!".

Questão: Quem foi que inventou que "Perguntar não ofende!" Quando é que perguntar não ofende?

Vamos ao contexto: Heródoto estava falando de um médico que tinha entrevistado antes e o assunto era pressão alta. O médico deu várias dicas de como evitar a pressão alta, fazendo exercícios e tendo uma alimentação saudável mas a que mais chamou a atenção da mídia foi: fazer sexo. Isso. Segundo o médico, ter uma vida sexual ativa é saudável.

Até aí ok. Aí o Heródoto ficou fazendo piadinha com os comentários do médico e entrou o Xexéo na cena. Aí o Heródoto pergunta: "E aí Xexéo, como anda a sua pressão?". Xexéo ficou mega sem graça, começou a rir no ar e falou "Ah... vai bem, Heródoto...". Aí, o Heródoto percebendo que tinha exposto a vida sexual do Xexéo em rede nacional para todo mundo rir falou: "ah, perguntar não ofende!".

Vamos lá:
1. Heródoto, com todo respeito... A ninguém interessa saber como anda a vida sexual do Xexéo. Credo.
2. Heródoto só falou que "perguntar não ofende" porque fez uma pergunta descabida, maliciosa e com o intuito de deixar Xexéo sem graça em rede nacional as 8h30 da manhã. Pra tirar o dele da reta ele apelou para o dito "ah, perguntar não ofende".
3. DU-VI-DO que Xexéo ia falar que a vida sexual dele andava "mais ou menos".

Eu consigo pensar em muitas perguntas que ofendem e que você pode tirar o teu fiofó da reta dizendo que "perguntar não ofende". Quem inventou isso não conhecia sarcasmo. Pelo contrário: só deveria se relacionar com pessoas tapadas e puras de coração. Perguntar não ofende se:
a) Você for um(a) idiota;
b) Você for muito burro(a);
c) Você não ter medo de perder todos os seus dentes;
d) Você estar em um local público e a pessoa a quem a pergunta foi dirigida ter ficado completamente constrangida para te xingar por conta da pergunta estúpida;
f) Você for um professor(a), profissão que exige que se faça perguntas;
e) Você trabalhar para a polícia federal;
g) Você perguntar as horas, a previsão do tempo, pra onde vai o ônibus...

Vamos a ótima que ouvi recentemente:

"E essa barriga? Você engordou?"

Ah, perguntar não ofende, né!? Essa eu ouvi do ex-bophe, que continua não tendo noção do perigo. Lógico que fiquei emputecida, mas o bruto ainda me disparou:


"Ah, não é pra ficar brava comigo!". E caiu na risada com a minha irritação.

Sim, e ouvir que está barriguda do ex-bophe é tuuuuuuuudo que uma garota precisa ouvir e nem um pouco ofensivo. Aí até você tentar justificar que é retenção de líquido, gases ou simplesmente o olho gordo dele, já tá feito o estrago. Mas gato, toda vez que alguma coisa de ruim acontecer contigo, lembra de mim, tá? A zica tá rolando...

Até perguntar onde fica a Rua Tals ofende. Outro dia estava eu perdida na Vila Olímpia tentando chegar em um bar para encontrar com as amigas. Aí paro em um posto e abro a janela da direita (com toda a dificuldade do mundo, pois minhas janelas não são elétricas) e chamo um frentista, com toda o resquício de meiguice que ainda existe em mim:

"- Ei moço! Por favor! Me dá uma ajuda! Uma informação rapidinho, por favor!"

Sabe o que a uva me responde? Ó:


"- Mé, eu num sô obrigadiu a ir até aí e dar informação pra ninguém não!!!", bem putinho da vida e gritando. Só faltou me mandar ir ver se o Tiririca estava na esquina comendo a mãe dele.

Lógico que aí baixou a baratinha em mim e disparei com igual cortesia: "Você é um filho da puta, seu lazarento, filho de uma rapariga, vai tomar no meio do olho do teu c*", etc.

É Heródoto... cuidado com as coisas que você pergunta por aí...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Maus hábitos

As pessoas ficam mais velhas com o passar dos anos e, ao invés de mais sábias também, ficam é mais idiotas. Conheço uma porção de pessoas assim. Eu estou inclusa.

Adquiri uma mão cheia de maus hábitos. Mas antes de me queimar (mais), listo só os três últimos: falar imitando bichas frangas no melhor estilo Katylene quando tenho alguma fofoca pra contar, imitar piriguetchis na rua quando vejo uma e reclamar muy alto e com sarcasmo quando fico puta.

Ontem eu estava com a macaca. Convenci mamãe de deixar a tal da Operetta no Anhangabaú pra lá pra irmos até a Disneylandia do Conjunto Nacional - Praia de Paulista (Livraria Cultura, vai).

A Disneylândia Cultura é sempre bacana: muito livro bonito, DVD, muita gente e confusão. Eu sou uma criança feliz lá! Ao lado da Disneylândia tem uma papelaria muito boa, e cara, mas que tem de tudo. A vitrine deles só que é horrorosa: cheia de "biscuits" de anjinhos de decoração, cachorrinhos, sapinhos e mais uma coisas uós que se compra na 25 de Março para coroar o mau gosto alheio.

Passei na frente da vitrine, fiz uma cara de "urgh" silenciosa e salivei ao ver a entrada da Disneylândia. Nisso, passa por mim uma piriguetchi daquelas de jeans + elastano bem justo, blusinha de babado que aumenta do decote dela, brincões e maquiagem laranja. Não deu e eu olhei né. Duplo "urgh" silencioso não fosse o:

"Ai! Olha só quanta coisa linda!"

A piriguetchi gostou da vitrine da papelaria. Jesuis! Eu parei para tentar processar o comentário aliado a figura horrora que ela era (demais andar e processar tudo), e minha mãe me chamou e perguntou qual era o meu problema, eu expliquei, ela deu risada, superamos juntas o comentário e adentramos a Disneylândia.

Aí me deu vontade de ir ao toilet. Cheguei lá e pra variar todos estavam ocupados. Até aí ok, porque não tinha fila na minha frente. A fila começou a se formar logo que eu cheguei e atrás de mim, uma mocinha simpática e sorridente e uma velha de vermelho. Logo que vagou o primeiro banheiro, eu fiz que ia entrar, pois era a minha vez, mas a velha deu uma de esperta e pulou na minha frente.

Eu fiz aquela cara de indignada, olhei pra simpatiquinha que também estava na frente da velha e falei:

"Tá, só porque ela é bem mais velha a gente não fala nada né."

A simpatiquinha olhou pra mim e sorriu sem graça. Cadê a dignidade minha gente? Mulher só é mais velha quando convém, não é? Aposto que se eu chamasse a velha de "senhora", ela ia vir cheia de dedos pra cima de mim e falar "a senhora está no céu", principalmente porque ela estava usando a roupa da neta de 16 anos dela. Piriguetchi velha é phodíssima. Mas aí ela resolveu aproveitar as rugas para achar que tinha "prioridade", pois o canal da uretra tá mais flácido, e passou por cima de todo mundo com muita falta de classe. Feiosa. E eu que sou mal-educada ainda.

Aí eu entro na fila do Café da livraria para comprar uma água. Espero pacientemente a minha vez e eis que pula um mancebo na minha frente, ultra cara-de-pau, e fala:

"Oi! Eu só vou comprar um água! É rapidinho, tá?"

A mocinha do caixa ignorou a situação e atendeu ele.

Mas que baita babaca. Eu também ia comprar uma água, porra! Mamãe não te deu educação, não fio? Sim, porque caráter nasce conosco. Agora educação e cavalherismo vem de berço. Só pra constar: estão amaldiçoadas por moi até a tua quinta geração, só porque você acha que porque é bonitinho pode-se cortar fila.

Tá, mais uma para eu superar em menos de 15 minutos.

Saímos da Disneylândia e eu não resisti de sair dando pulinhos com uma postura ridícula e uma vozinha dizendo:


"Ai quanta coisa liiiiiiiiindaaaaa!".

Dignidade, djá!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Na farmácia

Semana trash. Passei a semana toda tentando ter alguma idéia criativa. Sabe quando nada acontece? Quando os objetivos desaparecem? Quando os amigos de repente ficam indisponíveis? Quando o sinal da NET decide tirar férias? Pois é...

Eis que estava eu ontem a noite saindo do médico com uma dor de cabeça monumental. Daquelas de dar ânsia, de fazer você enxergar mal. Tinha uma farmárcia perto, bem na esquina, e fui direto do médico para lá comprar o que ele tinha me passado.

A farmácia tinha dois atendentes naquele horário: um caixa e uma balconista. A balconista em questão era uma encefalopata que deixou acumular uma fila gigantesca na farmácia. Decidi que ia ficar lá mesmo pois estava com muita dor de cabeça para sair e procurar uma outra farmácia. Mil anos depois chegou a vez do tiozinho do meu lado (a fila não era linear). Ele tinha lá seus 65 anos, uns 2 metros de altura e muito senso de humor. Ouvi a seguinte conversa:
"Balconista: Pois não?
Tiozinho: Você tem remédio para namoro?
Balconista: Como?
Tiozinho: He, eu disse remédio para namoro, minha filha!
Balconista: Hahahaha! Olha, esse ainda não inventaram... e acho que ninguém ia querer tomar!
Tiozinho: Então me dá 4 caixas de Viagra mesmo, de 100mg."

Eu, com a minha dor de cabeça, apertei os olhos para olhar para a cara do tiozinho e por um minuto fiquei séria pensando no que ele tinha acabado de falar. Olhei pra baixo e meu lábios se contorceram. Mordi o lábio inferior e meus ombros sacolejaram. Virei para o outro lado e fingi que ia dar uma olhada na prateleira dos cosméticos. Comecei a gargalhar baixinho, algo do tipo "mimimi". Nisso, o caixa olhou pra mim, e deu uma risadinha também. Dei uma tossida para ver se conseguia endireitar a cara. Funcionou por 2 segundos, mas daí escapou um "Ha!".

O caixa, muy amigo, começou a rir também mas se escondeu embaixo do balcão. Eu comecei a rir tão alto e sem noção que achei melhor sair da farmácia para não deixar constrangido o tiozinho e a mim mesma (mais) com o papelão. Saí pela rua rindo e sem comprar nada na farmácia...

Tá eu sei, Viagra é comum hoje em dia e tudo e tal... Mas eu sou infantil com esse tipo de coisa e dou risada igual... E certas coisas não adianta a gente procurar não, elas simplesmente caem na tua cabeça.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

                                                           Outra da Julieta Arroquy


(Vou tentar me lembrar disso... hehe!)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

                                                      Da talentosa argentina Julieta Arroquy.



E não, não estou com piolhos.

Meiguice

"Fulana é tão meiga! Ai, achei essa roupa muito meiga! Que casal meigo! Que rostinho meigo!"

Pra mim não existe adjetivo mais cretino do que "meigo(a)".

Titio Aurélio diz o seguinte:
meigo adj.
1. Dotado de meiguice.
2. Carinhoso.
3. Suave.
4. Terno.
5. Bondoso.
meiguice
s. f.
1. Qualidade de meigo.
2. Carinho; ternura. 
3. Carícias.
4. Palavras afetuosas para atrair a benevolência de alguém.
Mas a Tatá Albuquerque acha que: pessoas "meigas" são total e completamente desprovidas de personalidade. Verdadeiras antas, lesmas paralíticas com um vácuo no lugar do cérebro.

Mulheres meigas são coitadas; homens meigos são frouxos (não pode, nem deve, dizer que são viados, pois viados tem tanta personalidade que irrita; e bichas são sempre divertidas). Nem poodles de lacinho cor-de-rosa nas orelhas são bichos meigos, pois poodles são os cachorros enviados pelo demo para tifú quando você passa por um portão distraído.

Meigo(a) não é um elogio. É um eufemismo para quando as pessoas querem ser educadas com você mas dificilmente falarão a verdade: que você é um abobada(o) de vestimentas florais e bochechas róseas. E só.

"Ah, que meiga você é." - tradução para o português chulo: "Puta quiuspariu, não tinha sal nem pimenta do buraco da onde você saiu? Na tua terra pessoas foram clonadas a partir de uma célula mamaria da Sandy Leah? Ou você nasceu de um pé de chuchú?" 

Por favor, se você é uma pessoa que utiliza muito o adjetivo "meigo" te dou duas sugestões: 
- não fale comigo;
- compre um dicionário para ficar a par dos sinônimos menos ofensivos.

Brigada.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sobre a vida, transportes coletivos e tevês a cabo

A vida é assim:

Você nasce e logo que desenvolve uma consciência, mamãe e papi te dão educação do tipo: não passar massinha de brincar no cabelo da coleguinha, não pintar as paredes de casa com giz de cera, não comer doce antes do almoço ou do jantar, não destruir as bijuterias da mamãe com alicate de unha, não bater nos meninos da escola com a corda de pular ou com o estojo de latinha... Falar bom dia, boa tarde e boa noite para pessoas em locais públicos (e.g. elevadores, corredor do prédio, etc), não encostar nas pessoas (cada um no seu quadrado), dar passagem ou o seu lugar para os mais velhos, abrir a porta para os mais velhos, dizer "muito obrigada" o tempo todo (mesmo quando nada te foi feito), "com licença" e "me desculpe" (mesmo quando você não fez nada ou a culpa não foi sua).

Resultado: você foi criada(o) para ser uma lady/gentleman, num mundo perfeitamente redondo. Parece até uma boneca(o) de porcelana que impressiona a todos pela sua gentileza, educação e elegância.

Aí você cresce e tem que tomar o transporte público. Você vê aquela fila cachorra no Anhagabaú na segunda-feira de chuva pós-feriado. Tá tudo abarrotado para entrar na estação e você tem duas opções: 

Opção 1:  à la Marie Antoinette (phyna!)
- Ser educada(o) e deixar que todo mundo passe na sua frente pois não se imagina empurrando ninguém, mesmo que não tenha uma fila organizada, pedindo sempre desculpas por estar incomodando os outros com um guarda-chuva molhado ao lado do corpo (que você achou muito mais educado manter fechado para não dar com ele na cabeça de alguém ou furar um olho), e levar uns bons 45 minutos até conseguir chegar na catraca; 45 minutos esses que foram enfrentados com muita dignidade enquanto um velho ou uma gorda escrota te encoxavam até o final da fila, para que um malandro qualquer ainda te corte e dispute a catraca com você fazendo cara de "e aí, mocréia/mané? quem você pensa que é para passar na minha frente?". Não, não conta que você ficou 45 minutos na fila polidamente aguardando a sua vez para passar na catraca. Você engole, dá um sorriso de Monalisa e gentilmente cede a sua vez. Chega em casa frustrado(a) com a falta de educação no mundo. Pensa com o coração apertado que não existe mais cordialidade, que o mundo está perdido.

Aí você liga a televisão na NET em casa, e a uva está sem sinal devido a manutenção na área (a décima quinta em 2 dias). Só te resta pensar:
"Ó céus... que lástima."
E tocar a vidinha...

Opção 2: à la Holden Caulfield (o anti-herói)
- Ser agressivo(a) e disputar o seu espaço no aglomerado que a administração do metrô acha é fila, com guarda-chuva e tudo. Olhar feio para quem reclamar que seu guarda-chuva está formando uma goteira bem na "chapinha" que fizeram no sábado a tarde. Se enfiar no bolo humano e xingar o fiodaputa que ousar passar na tua frente porque você está na fila como todo mundo e ninguém tem nada de especial alí. Mandar o velho ou a gorda escrota que está te encochando sifú. Correr para as escadas rolantes até a entrada dos carros. Deixar o povo de dentro sair por exatos 5 segundos e se jogar no outro bolo humano antes que a porta feche com a sua bolsa para o lado de fora. Escarafunchar uma série de sovacos até a porta da saída que fica bem do outro lado. Assim que abrir a porta na estação que você pretende saltar, bata com tudo nas pessoas que estão esperando para entrar pois, se você não o fizer, vai ser jogado novamente para dentro do carro e ter que fazer tudo de novo na próxima estação para ter que voltar para o seu destino original. Vale dar lição de moral no babaca que achou que fosse entrar no carro antes que você pudesse sair. Palhaço. Chamar  de "porcos inúteis" os 6 funcionários concursados do metrô que estão parados conversados em filinha bem a frente das catracas vazias da saída, quando deveriam estar organizando a entrada e saída dos carros para que não haja confusão, afinal você paga impostos que são convertidos em salários para os imbecis ficarem fazendo chacrinha e contando piada.

Chega em casa mais leve porque não existe nada mais libertador do que um "foda-se" em alto e bom tom. 

Aí você liga a televisão na NET em casa e xinga aquele russo maldito porque a porcaria está com um sinal medíocre. Resolvido o problema, assim que você acha um filme para assistir e finalmente relaxar percebe que todos os canais só passam filmes dublados e ainda por cima aquele receptor velho que negaram trocar porque "o seu plano não existe mais senhora, será necessário estar ajustando  o valor  para R$70,00 a mais na sua conta para você estar adquirindo um receptor novo" não configura a tecla SAP!

Mas tudo bem. A raiva passa em 10 minutos com um chá de cidreira e você poderá dormir feliz e tranquilo(a) porque fez as suas próprias escolhas na vida, não foi trouxa nos transportes coletivos e escorraçou todos os departamentos da NET por eles possuírem o monopólio de um serviço deficiente e que ainda apóia a ignorância do povo brasileiro.

PS: preciso deixar claro que se existe uma palavra de me deixa mais emputecida na vida do que a "mistura", é "condução". Odeio quando "condução" é utilizado no sentido de transporte público. Odeio.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Patacuádas Hermanas Parte II

Oportunistas existem em qualquer lugar do mundo.

Reservei um dia (tá, dois) para fingir que era Carrie Bradshaw correndo com um monte de sacolas de compras por Buenos Aires e me sentindo "fabulous" de saia, casaco, tamanco e echarpe ao vento. Aquele sorriso estampado na cara de menina que aprontou todas e estourou o cartão de crédito com muitas e muitas roupas. Para completar meu momento Sex and the City, avisto um taxi amarelo e levanto uma mãozinha cheia de sacolas, fazendo sinal para ele parar.

Como em Buenos Aires eu sentia que todos os santos estavam conspirando ao meu favor, o taxi vazio parou prontamente (quase atropelou uma velha, que eu vi). Eu fiz uma cara de satisfeita e atravessei a rua correndo para entrar logo e não atrapalhar o trânsito.

Nisso, do outro lado da rua, veio correndo um rapazinho e abriu a porta do taxi pra mim. 

"Óh, mas quanta gentileza! Ele me viu cheia de sacolas e quis ajudar! Nunca vi ninguém fazer isso no Brasil!", pensei.

Disse um "gracías", me taquei no taxi com as sacolas e o rapazinho fechou a porta pra mim. Dei um largo sorriso de gratidão e o taxi arrancou.

Uns dois dias depois, Juan e eu fomos até a Praça de San Telmo para que eu pudesse ver quinquilharias. Choveu um horror naquele dia e resolvemos pegar um taxi para voltar para casa mais tarde. Nisso, quando conseguimos um, lá veio um rapazinho (um outro) abrir a porta para nós. Juan pegou umas moedas do bolso, deu de gorjeta para ele e entrou no taxi atrás de mim. 

Eu, como boa paulista-ninguém-me-passa-a-perna-no-exterior fiz uma cara de "és loco, chico?", e perguntei para o Juan:

" Eu - Ei, porque você deu dinheiro pra ele?
  Juan - Porque ele abriu a porta.
  Eu - Como assim?
  Juan - Como assim o que?
  Eu - Como assim que quando alguém abre a porta do taxi aqui você tem que dar dinheiro?
  Juan - (Longa pausa)... A gente faz isso aqui, Talitta.
  Eu - Mentira.
  Juan - Verdade. Porque a indignação?
 Eu - Errr... hum... depois eu te conto."

Fica aí a dica de quem quiser ganhar uns trocados extras: quando você ver alguém entrando num taxi aqui na cidade, corra até carro e abra a porta pra pessoa. Quando falarem "obrigada, mocinha!", diga "obrigada nada, é 2 reáu!". Fale alto e claro, porque ninguém é obrigado a saber das suas verdadeiras intenções.

E eu achando que ainda existia gentileza no mundo...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Patacuáda Hermana Parte I

A verdade é que eu achei o povo argentino muito mais coerente que os brasileiros. São amigáveis iguais, do tipo "amigo do meu amigo, é meu amigo também" ou "conversou 5 minutos já contou a vida toda e já virou amigo de infância".

Foram poucas as situações que me tiraram do sério. Uma delas aconteceu em Mendoza.

Estava eu com uma baita azia por conta de vinho de mais e comida de menos. Resolvi andar pelo centro de Mendoza em busca de uma farmácia pra conter a queimação e me dar mais algumas horas de manguaça degustação. O problema é que aqui eu sei o que tomar, tipo, sei lá, Sal de frutas. Lá, bem, além de não saber qual era o princípio ativo de qualquer remédio que pudesse me ajudar, ou coisa que o valha, existia a dificulidade de explicar tudo em español.

Enfim, entrei numa farmácia qualquer, aparentemente de rede. Estava cheia. Logo que entrei uma moça me abordou falando muito rápido e me deu um papel com diversos remédios que deveriam estar em promoção. Eu entendi que se eu escolhesse algum remédio daquela lista pra comprar, eu ganharia um remédio da mesma lista de presente (regalo, em español).

" - Ah, no gracías!".

A mulher continuou me pentelhando, tentando me convencer a levar qualquer remédio da lista. Comecei a ficar irritada porque, com ela falando rápido na minha orelha, e em español, eu não conseguia pensar nem ao menos ler o que tinha na lista dela. Fiquei mais irritada ainda porque, ao menos pra mim, farmácia não é um lugar pra ter surto consumista e sair comprando remédio porque achou a caixa bonita.

Dispensei a mulher. Entrei na fila para tentar explicar ao balconista o que precisava , e o que estava sentindo, e enquanto esperava pela minha vez dei mais uma olhada no folheto e achei um remédio para Acidez Estomacal. Maravilha! Era precisamente o que eu queria. Quando chegou a minha vez eu pedi o remédio do folheto e ainda conversei com o homem para ver se estava comprando a coisa certa para o que eu estava sentindo.

Feitos os acertos, peguei o meu remédio e me dirigi ao caixa. Fiz tudo muito rápido para tentar evitar a vendedora petulante.

Tinha uma certa fila no caixa e ela estava perto. Tentei esconder o nome do remédio para que ela não visse e não viesse me encher com o tal do "regalo". Chegou a minha vez, paguei o remédio, o moço do caixa colocou dentro de uma sacolinha, me deu o recibo, e eu feliz fui saindo da farmácia.  Já estava na porta de saída da farmácia... eis que escuto:

"- Mira, chica!!! Olvidaste el regalo!!!" (Ei garota!!! Você esqueceu o presente!).

E eu achando que ia conseguir sair de fininho... Parei onde estava, coloquei um sorriso amarelo fluorescente na cara e virei para encarar a vendedora.

"- Ah, sí sí.. creo que me olvidé... Pero, no es necesário señora... Muchas gracías! (Ah sim... creio que me esqueci... mas, não é necessário senhora... muito obrigada!).
 - Pero, es un regalo! (Mas é um presente!)
- Sí, yo comprendí. Pero yo no quiero el regalo. Gracías! (Sim, eu entendi. Mas eu não quero o presente. Obrigada!)
- Pero, porque no quieres el regalo?
- Porque ahora yo no necesito de nada más, sólo esto que he comprado.
- Pero no hay que pagar nada más para el regalo!
- Sí, yo sé. Pero YO NO QUIERO EL REGALO!
(Falei mais alto e pausadamente, porque acho que a vendedora não estava me entendendo).
- Mas porque no? (A tia tava parecendo o Chaves já)
- Porque remedios no son regalos! Yo estoy de viaje y no quiero nada más  que  deje mi equipaje  más pesado! (Remédio não são presente, porra! Eu estou viajando e não quero mais tralha para que minha bagagem fique mais pesada!).
- Ok. Mira, puede elegir lo que quiere. Yo tengo... (e falou uma lista cansativa de pastilhas para tosse, remédios para cólica, dor de cabeça, dor de barriga e tudo e tal...)
- Ah, mas que encaralhamento meu Deus... (em português mesmo).
- Qué? (Que?)
- Nada. Dámelo. (Nada. Me dá.)
- Cuál? (Qual?)
- Cualquiera. (Qualquer um.)
- Bueno! Ganaste entonces el spray antiseptico! Muchas gracías señorita! (Ótimo! Então ganhou o spray anti-séptico! Muito obrigada senhorita!)
- É, tá."

E o pior era que a embalagem de spray anti-séptico era gigantesca. Fula da vida pela minha falta de objetividade e grosseria em español por escassez de vocabulário, ao chegar ao hotel joguei o trambolho anti-séptico no lixo.

Lição de casa: aprender a ser grossa em español.