terça-feira, 18 de maio de 2010

Filhadaputagem assumida

Assisti esses dias a comédia nova do Woody Allen, "Whatever Works". Impossível não simijar de rir com a impaciência de Boris Yelnikoff para com pessoas burras. Apesar das críticas, eu amei.

Boris é um chato assumido. O cara é mal educado, grosseiro, arrogante e tem plena consciência disso. Ele ainda era hipocondríaco e maníaco depressivo. Ele sabe quem ele é e manda todo mundo as favas porque ele gosta de ser mal educado, grosseiro e arrogante. Ele não tem vergonha nenhuma de ser quem ele é. Aliás, acho que ele se divertia sendo maníaco depressivo principalmente quando tinha alguém pra escutar ele gritando a noite. A primeira lição de hoje é que quanto mais cedo assumirmos que somos o que somos, nem santos nem vilões, mais em paz estaremos conosco.

Eu não acredito em pessoas 100% boas. Nem 100% más. Como disse aquele grande filósofo, o qual não sei o nome: "A oportunidade faz o ladrão". Todos nós temos potencial para sermos grandes filhos da puta. Eu já disse aqui que não sou uma pessoa meiga. Eu ganho consciência cada dia mais que como Boris eu sou chata, grossa e impaciente com pessoas burras (entre outras coisas). Mas tenho qualidades das quais me orgulho muito: coragem e caráter. E a coragem me dá forças para assumir o que sou e me sentir em paz sendo o que sou. Eu prefiro ser uma chata grosseira de caráter do que ser uma bolinha felpuda purpurinada covarde.

O que eu mais tenho visto por aí é a dificuldade das pessoas em assumirem as suas filhadaputagens. De todo o tipo, digo. E até coisas que eram quase que exclusivas do sexo masculino, hoje em dia eu diria que todo mundo faz. Quem nunca desgastou o máximo que pode um relacionamento, de qualquer natureza, por não ter coragem em dar um ponto final na história? Eu admiro quem levanta e fala: "Pra mim chega!" para os pais, para os namorados(as), para o chefe abusivo(a). E sabem por que ninguém fala nada? Oras, quem quer parecer ao outro que é um grande filho da puta? É tão mais fácil jogar a culpa em algum evento ou em alguém... Ninguém assume nada. A culpa é sempre do terceiro.

"Olha, eu vou te sacanear... mas não é culpa minha! É por causa de fulano de tal, pediu que eu fizesse isso... você sabe que se fosse por mim eu não faria nada pra te sacanear, né? Afinal, eu sou uma bolinha felpuda purpurinada tão bonitinha e meiga! Não briga comigo!". Pronto! Fácil fácil! Culpa qualquer fulano que nem na cena está para se defender e quase que como por mágica tirou o teu da reta!

Mas olha, acho tão mais bacana isso: "Ah, fui eu sim. Eu fiz isso sim. Por que? Porque eu quis, oras! Deu vontade. Me pareceu o mais sensato. Me pareceu certo. Agi de acordo com os meus instintos. Foda-se".

Não estou falando de perder o respeito para com as pessoas nem de traição. Aliás, não assumir as suas filhadaputagens é falta de respeito maior. É subestimar a inteligência dos outros. Filhos da puta covardes são traiçoeiros, nunca se sabe da onde vai vir a rasteira. A decepção é sempre maior. É mais feio porque, além de ser covarde o fulano(a) se faz de coitado. Ah, a velha e eficiente síndrome de coitadice... E filhos da puta covardes são pessoas tão fracas que não suportam nem suas próprias consciências! O filho da puta covarde é tão covarde que não consegue conviver consigo mesmo.

"Ah, coitadinho(a)... não foi culpa do(a) felpudinho(a)... Vou deixar passar..."

Ah, mas que coisa... Eu estou aprendendo com a vida que não me interessa ser boazinha, falsa, bonitinha, meiga, fraca e filha da puta. Me interessa ser somente quem eu sou, assumir o que sou e estar confortável e no controle da minha vida e não negar o meu potencial de filha da puta. Admiro muito mais os filhos da puta que levam na cara, sorriem, entendem que mereceram, a bronca aprendem com seus erros e tocam a vida como uma pessoa melhor. Filhos da puta assumidos merecem respeito pois são verdadeiros consigo mesmos. Filhos da puta assumidos nunca te decepcionam porque aconteça o que acontecer você sabe que ele tomou uma atitude filha da puta simplesmente porque ele é filho da puta e é só o que se poderia esperar!

Nesse final de semana teve Virada Cultural na Big Banana (pausa aqui: se NY é a Big Apple, acho justo SP ser a Big Banana). Eu combinei com o marido (Ana) de ir ver o show do Sidney Magal no Anhangabaú. Mas trabalhei bastante no sábado e fiquei muito cansada. Não estava nem um pouco a fim de andar o centro todo para ver os shows nem de ficar até tarde. Resultado: fiquei encaralhada. Eu ficando encaralhada, a Ana ficava também. E ficou as duas naquele encaralhamento a noite toda. E não assistimos o Sidney Magal. Nem o Luis Caldas. E Ana ficou nervosinha comigo. E eu nem aí. A hora que bateu a estafa, eu falei que ia pra casa. E ela foi também sem assistir o que queria. Não tivemos nenhuma briga, mas se tivéssemos seria do naipe (com sempre é): eu fui egoísta e filha da puta, porque passei a semana inteira combinando que ia acompanhá-la. Chegou a hora, desisti porque estava cansada. Filha da puta porque, se fosse eu quem quisesse assistir ela iria comigo mesmo estando muito cansada. Como se a gente controlasse o cansaço do corpo. E eu ainda ouvi que deveria ter tomado um tônico... Ai, é sim... deveria... Não tem coisa pior do que obrigar alguém a ir a algum lugar pra te fazer companhia quando a pessoa não está afim, ou de você ou do lugar. Pode ter certeza que indireta (ou diretamente) seu par vai acabar com a sua diversão. Aquela coisa de convenções sociais que dizem que é obrigação ser companheiro quer você queira ou não. Obrigação!

Lição número dois: nunca deposite suas expectativas de ser feliz em outras pessoas. Pois a probabilidade de você se decepcionar porque as pessoas "nunca vão retribuir as coisas que você faz no mesmo nível" são imensas. Ninguém é obrigado a nada. E é por essas e outras que vou ao cinema sozinha. Ninguém é obrigado a assistir meus filmes bizarramente chatos. Ai, as cobranças! Puta saco! Você tem que fazer tal coisa porque eu fiz isso por você! Jesuis...

Enfim... além de contraditórias, pessoas são filhas da puta. Completamente utópico também achar que todos os filhos da puta do mundo criarão um dia coragem para se assumir. Mas eu sou uma filha da puta sonhadora...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Avisar ou não avisar...

Querido Diário,

Ontem no metrô eu vi uma mulher com um rasgo na calça. Bem na bunda. 

Não, seu diário bobo! Eu não estou virando lésbica pra ficar olhando pra bunda de mulher... Mas a mulher estava com uma calça social preta e a calcinha era azul turquesa, que chamava muita atenção. Era praticamente um pisca-pisca na bunda dela. E era uma bunda enorme! Acho que ela acordou ontem e pensou: 

"Nossa, como eu sou gostosa! Vou colocar uma calça social bem justa pra marcar a minha bunda e arrancar uns elogios a caminho do trabalho. Quem sabe eu consigo aquele aumento na firma! Ou conheço um executivo rico e bonito que queira casar comigo! Definitivamente vou botar essa calça preta".
Tá. No que ela fez que ia sentar em algum lugar a calça dela rasgou. Aí fiquei pensando, sem tirar o olho da bunda dela:

"Puts, será que ela está assim faz muito tempo? Coitada... será que eu aviso que a calça dela tem um rasgo de 5cm que aumenta progressivamente a cada passada dela? Ai, se fosse comigo eu gostaria que avisassem... Não que eu use uma calça tão justa assim que rasgaria a qualquer movimento mínimo meu. Mas sei lá, se eu tivesse uma salsinha no dente, gostaria que me avisassem. Ou a braguilha da calça aberta. Pensando bem, se eu chegar nela e falar do rasgo pode ser que ela fique brava porque eu estava olhando pra bunda dela... Até eu explicar que não tenho segundas intenções a não ser minimizar o constrangimento dela, já foi né... Se bem que se ela não sabe que a calça está rasgada, logo não pode estar constrangida. Afe, todo mundo que passa por ela olha pro rasgo. É como se ela tivesse um papel grudado nas costas com alguma piada de mau gosto escrita e todos passassem rindo, e ela se achando...".
Lógico que chegou uma hora que ela percebeu que eu não tirava o olho dela. Ela olhou feio do tipo "Qual é o teu problema, garota???". Bom Diário, aí eu fiquei sem graça e dei aquele sorrizinho amarelo fluórescente que você já conhece, aumentei o som do aipódji, olhei pra frente e tentei superar os acontecimentos recentes.

E eu nunca tive a oportunidade de avisá-la sobre o seu rasgo-monstro. Que ironia, Diário... um rasgo na bunda! Um rasgo onde já existe um rasgo!

O que você faria? Avisaria ou não?

XOXOXO

Talittinha

PS: Diário querido, não é legal andar de aipódji com o som alto no metrô. Digo isso porque você pode não escutar o apito que avisa quando as portas estão fechando... Não, eu não vou te falar como foi que eu descobri isso.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Monossílabo

Almoço de dia das mães na casa da Terra do Nunca. Família reunida. Mesa da sala posta e elegante. Mãe sentou na minha frente e pai ao lado da mãe.

Aí ficou o irmão do meu lado. O irmão é mais novo que eu um par de anos só. Segundo a mãe, o irmão demorou para começar a falar (comparando comigo acho, que aos 8 meses de idade já estava dando as minhas opiniões descabidas por aí). Pura preguiça (nada de errado com ele no plano psicológico).

Desde então, não evoluiu grandes coisas. O irmão gosta de ser monossílabo. Fala só o necessário mesmo. É "sim", "não", "não sei" e quando está inspirado ele arrisca uns resmungos ininteligíveis. É praticamente o Chewbacca. Dia de futebol, quando ele ousa ver o jogo na minha presença em casa, vez ou outra ele grita um xingo. Aliás, estava eu outro dia com meus pincéis e tintas quando irmão gritou "Chuuuuuuuuuuuuupa filho da puuuuuuuuuuuuta!!!", e me deu um susto daqueles que voou tinta azul pela parede e chão... Ainda estou tentando tirar a tinta do rejunte...

Durante o almoço de domingo, tivemos uma belíssima conversa que seguiu:

"Irmão: Hum... (apontou para o lado direito e me deu uma cotovelada)
Eu: Quié?
Irmão: Hum hum... (apontou e nova cotovelada)
Eu: Oi?
Irmão: Hum hum hum!!! (duas cotoveladas)
Eu: O que você quer, caralho?!
Irmão: Passa o guardanapo, porra!"

Um mimo, né não?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ignorando

Há séculos não ia num casamento. Foi de uns vizinhos, gente que não me interessa saber mais da vida, mas são amigos do meus pais. Faziam questão da minha presença, a família da noiva e meus pais digo. Resolvi então agraciá-los com a minha ilustre presença porque estava super afins de vestir uma bela estola de pele.

Munida então de estola, maquiagem, salto 20, muita arrogância e perspicácia, dei minhas caras na Terra do Nunca. Gente muito antiga, enfadonha e brega. Mas muita gente amiga também. Abracei os amigos, contei piada para distrair os abutres que desejavam saber detalhes da minha vida e ignorei os muito indesejáveis.

E como tinha indesejáveis! Gente que nunca me fez bem, que me ignorou muito também e que foi interesseira.

Não tem problema pois me treinaram muito bem! Ignorei todos! Fingi que não conhecia mesmo... e me aproveitei ainda do fato de metade não ter me reconhecido para nem tentar lembrá-los de quem eu sou. Foi divertido! Revigorante! Gostei de ignorar! Tinha prometido que a partir deste ano não ia fazer questão de ser educadinha com quem nunca mereceu minha educação.

Domingo a noite resolvi ir ao cinema. Ah, sozinha mesmo... e prometi a umas quantas pessoas que assistiríamos o filme que assisti todos juntos. Desculpe, eu menti. Tava morrendo de vontade era de ir e ver sola. E fui. E pronto.

Aí, andando pelo shopping onde tinha o cinema esbarrei em um conhecido. Conhecido porque ele nunca foi meu amigo. Nunca trocamos muitas palavras. Nunca tivemos nenhuma intimidade. Era uma enxurrada de "ois" e "tchaus" perfeitamente polidos e obrigatórios. Éramos queridos de uma pessoa em comum, então a educação era mandatória. Foi um par de anos assim, uma pseudo convivência harmoniosa. Sempre tive uma forte opinião sobre ele, mas mantive e manterei ela somente para mim. Acho que ele sente o mesmo ao meu respeito, mas ficar supondo nunca me levou a lugar algum então deixa pra lá.

O conhecido estava com a namorada. Eu acho. E o conhecido me ignorou. Eu até poderia pensar que ele estava com pressa de chegar ao cinema, ou que não me reconheceu ou até mesmo que olhou tão rápido que de fato não me viu.

Mas viu. Viu e ignorou. Ignorou porque não existe mais nenhum motivo para ele ser educado comigo. O vínculo que existia foi-se. Não somos amigos, nem colegas, e se antes ele era amigo de um querido agora ele não é mais nada. Eu não sou mais nada e ele deixou isso bem claro.  Não esperava que ele viesse até mim e me cumprimentasse com beijinhos e tapinhas nas costas. Mas  um "oi" inaudível com um aceno de cabeça seriam apropriados. Acho que a indiferença dele doeu mais do que se ele tivesse me falado isso na cara : "Se liga, você não significa mais nada." E nossa, como doeu! Baita chute no ego! Me disseram uma vez que ele era igual ao outro (o que eu ignorei convenientemente), não faz questão de nada a não ser de si mesmo. Ainda não decidi se isso é bom ou ruim...

Andou rápido, pareceu até que deu uma volta maior para desviar do caminho que fazíamos, que era o mesmo. E entramos na mesma sala de cinema!

Engraçado, apesar de tudo eu nunca ignoraria ele. Eu cumprimentaria, o "oi" e "tchau" de sempre adicionado de um sorrido sem graça. Nostálgica dos velhos tempos... De fato, não ignoraria...

Mas é isso aí. Aprendendo a não esperar nada de ninguém e sempre. E já que não posso fazer nada a respeito, só me resta dizer:

Gato, o remédio para calvice não está funcionando. Beijo!