quinta-feira, 17 de junho de 2010

Absurdos étnicos

"Acreditem ou não, os roteiristas Boaz Yakin, Doug Miro e Carlo Bernard, que jamais escreveram um script que prestasse em suas vidas, não hesitam em usar uma tragédia contemporânea (a invasão do Iraque) como fonte de inspiração para um projeto cujo maior mérito é o de ser suficientemente tolo para não ser levado a sério – e se o trio de picaretas fez isso por canalhice, estupidez ou simplesmente por contarem com uma consciência política terrivelmente ingênua (e que talvez os levasse a acreditar que estavam fazendo algo “relevante”), o fato é que Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo só começa a funcionar minimamente quando foge de seu óbvio subtexto e se concentra na imbecilidade de seus ridículos personagens. (...) Jake Gyllenhaal parece perdido como Dastan, sem jamais conseguir encontrar a essência de um personagem que ora soa irreverente, ora terrivelmente sério (e nem vou abordar o absurdo étnico de Gyllenhaal interpretar um persa)".
(Pablo Villaça, Cinema em Cena, 04/06/2010)

HAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAH
HAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Pablo, virei sua fã.

Mas ó, fora tudo isso que eu concordo em número, gênero e grau, só faltou o absurdo étnico de toda a população persa falar inglês britânico. Absurdo por absurdo, já que o filme é da Disney e a Disney é uma empresa norte-americana, bem que eles poderiam ficar no American English já que na "Pérsia" não se fala nem uma coisa nem outra.

Oh wait. Alguém já reparou que em todos os filmes "étnicos" da Disney e afins os heróis caucasianos que na verdade deveriam se parecer com os locais falam inglês britânico, e os amigos dos locais e subalternos falam inglês com sotaque tosco?Já sei. A nobreza persa estudou em Oxford e aprendeu "comme il faut". Justo, não? Conheço um monte de gente que fez o mesmo.


Oh wait! Absurdo étnico número 3: Oxford ainda não existia.


Gente, estou confusa.

Eu fico imaginando se um dia a Disney fosse fazer um filme com temática brasileira, sei lá, Chica da Silva... Seria a Chica interpretada por Megan Fox bronzeada e de peruca afro, com sotaque britânico, quando os outros escravos seriam negros do pelourinho e alguns mulatos falando coisas do tipo:

"Dê búki izz ôm dê teibô, Zé!"

Sei lá, só pensando...

No sacolão

Se eu tenho o dom de encontrar pessoas "french bizarre" na rua ou se elas que me procuram eu não sei. Mas que circundam a minha vida, ah! Se circundam!
Tava eu na minha rotina de acordar hiperativa em um domingo de manhã, ignorando ressaca e cansaço pós balada, para aproveitar o lindo dia de sol fora de casa. Fui à feira comprar os usuais cardamomos, canelas, anis estrelados e cravos da índia sem os quais não vivo sem. Após a feira, vou ao sacolão comprar o restante que preciso, pois na feira tudo é mais caro e só compro as especiarias porque no meu bairro é o único lugar que posso encontrar.

Tá. Entro no sacolão. O sacolão provavelmente pertence a um asiático, pois tem de tudo importado da Ásia. E olha que eu não moro na Liberdade. Enfim, por este motivo o sacolão atrai os poucos asiáticos que residem no meu bairro.

Fui até a gôndola de sabonetes para comprar sabonetes (!). Como o meu estimado irmãozinho come sabonetes em casa, sempre olho mais o preço do que a marca. Tipo, um Lux digno custava em torno de R$ 0,65. 

Ao meu lado se encontrava um simpático senhorzinho japonês. Deduzi a sua origem pelo sotaque, pois ao se dar conta da minha presença, ele disparou:

"Senhorzinho japonês - Sabonete marca boa, né?
 Talitta - Hein?
Senhorzinho japonês- Sabonete marca boa, né? (ele se referia ao Protex)
Talitta - Ah, é... marca boa sim...
Senhorzinho japonês - Preço bom, né?"

Olhei o preço do sabonete: R$ 1,75. Dava pra comprar dois e meio do meu.

"Talitta - Ah, é... tá com preço bom mesmo.
Senhorzinho japonês - Bom pra tudo, né? Mata vírus, bactéria e verme, né?
Talitta - Como é? 
Senhorzinho japonês - Mata verme e bactéria, né?"

Só consegui balançar a cabeça dizendo que sim. Soltei um "mimimimi" na tentativa de não gargalhar na cara do bom velhinho, virei as costas e ri finalmente.

Sabonete mata verme! Como assim, Brasil???!!!

E eu preocupada com o preço...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Balada

Bato na tecla do "só dou respeito pra quem me respeita".

Dias de semana desses a amiga liga tarde da noite com a conversa de : "vamos no bar com as fulanas!". Ah, não resisti. Bar bacana, companhia agradável... Solteira, livre, desimpedida e cara de pau que sou, fui.

Bar cheio, as amigas "alegres" falando e gargalhando como gralhas enquanto colocavam os assuntos em dia. Conversas filosóficas não demoram a aparecer.

Eis que, no meio de um diálogo profundo e freudiano com a amiga, brota um fulano bêbado no meio de nós duas interrompendo meu discurso.

"Fulano: Ôôôôiiii... Posso conversar com vocês?
  Talitta: Hum, não. Então amiga, continuando o que eu estava dizendo antes de ser brutalmente interrompida...
Fulano: Noooooossa! Como a sua amiga é grossa!
Ana: Puts, isso não foi nada...
Fulano: Você parece ser muito mais simpática! Vou conversar com você então!
Ana: Ha, não se deixe enganar pelas aparências...
Fulano: Olha aqui. Como assim? Vocês são duas mulheres solteiras, na balada, acho absurdo não quererem que um cara como eu chegue em vocês."

Oi?

Pausa aqui. Mulher solteira na balada = mulher desesperada por atenção e que deve aguentar com classe e sorriso os "cortejos" de bêbados mal-educados e desmiolados.
"Ana: Por que você acha que estamos solteiras?
Fulano: Ah, olha pra vocês! Duas mulheres sozinhas num bar a essa hora e num dia de semana... só podem ser solteiras!"

Hein?

"Talitta: Claro. No mundo limitado e atrasado que você vive, isso até pode ser verdade.
Fulano: Haha! Como você adivinhou? Eu sou do interior mesmo!
Talitta: É um dom que eu tenho.
Fulano: Sou de Caculézinho. Conhece?
Talitta: Não. Sério, não estamos interessadas em levar essa conversa adiante. Se você não se importa, vamos continuar nós duas aqui...
Fulano: Olha, tudo bem. Entendo. Vocês não querem conversar com homens no bar. Sem problemas, vou me retirar. Foi um prazer conhecer vocês duas. Passar bem e morram solteiras."

Bom, a amiga e eu olhamos uma para a outra e caímos na melhor gargalhada da noite. Não é possível que o absurdo da situação não seja óbvio: Homem bêbado avista duas mulheres conversando num bar. Homem bêbado se aproxima, interrompe a conversa, se apresenta faz uma pergunta e espera reação. A pergunta dele dá margem somente para duas respostas: Sim ou Não. E ele, bêbado insolente que é, só se prepara para o Sim. O Não fere tanto o seu orgulho que a sua contra-reação é infantil. O bêbado não se conforma que duas mulheres não façam questão nenhuma de sua companhia petulante. Não admite que mulheres não queiram ser cortejadas por um bêbado. Óh, que absurdo!

Passados 5 minutos o bêbado viu que nós levamos na brincadeira a praga dele. E não contente com o primeiro fora, ele volta.

"Fulano: Olha, eu queria me desculpar pelo meu comportamento de antes. Não falei de verdade, vocês são duas mulheres muito bonitas e interessantes! Não tem desculpa pela minha grosseria...
Ana: É, desculpa não tem mesmo... mas a gente entende. Não é culpa sua que você é assim...
Talitta: ... assim babaca.
Ana: Muahahahahahahahahahahaha!!!!
Fulano: Olha, eu vim aqui me desculpar e ser legal. Não acho justo vocês serem grossas.
Talitta: Eu não acho justo você ser tão pretensioso a ponto de achar que a escusa da sua companhia seja ultrajante.
Fulano: O que? Qual é o seu problema, hein?
Talitta: No momento, você. Aliás, qual é o seu problema?
Ana: Qual parte do "não estamos interessadas" você não entendeu?
Fulano: Ah vai! Quando vocês menos esperam já estamos conversando... olha só! Do que vocês estavam falando antes?
Talitta: De coisas que estão além do teu grau de maturidade.
Fulano: Peraí. Vocês são lésbicas? Só pode então...
Talitta: Ai, lá vai. É tão absurdo duas mulheres te darem um fora que: ou você roga uma praga ou tacha de lésbica. Claro, algum grande problema elas devem ter por recusarem conversar com um bêbado caipira, mal-educado, limitado e infantil. Problemáticas. Quer saber, eu sei sim qual é o seu problema.
Fulano: Hãnnn???
Talitta: Piroquinha.
Ana:Muaahahahahahahahahahahahaaaaaaaaaaa!!!! Ai como assim!!!
Fulano: ...
Talitta: Isso mesmo. Piroquinha de ganso. Assim ó! (e mostrei pra ele o tamanho que achava que o pinto dele tinha). 

Ana e eu ríamos tanto que os dois amigos dele achavam que nós estávamos interagindo de forma positiva e se aproximaram. Um deles, com uma baita aliança dourada na mão esquerda, estendeu a mão pra mim e lascou um :

"Amigo do fulano: Oi gata... Posso te cumprimentar?
Talitta: ...
Amigo do fulano: Posso te cumprimentar? Posso te cumprimentar? Posso te cumprimentar?Porra cara, que mina xarope..."


Oi?

O cara é casado, sai pra beber com os amigos e paquerar mulheres no meio da semana (sim, a forma como ele me abordou foi lasciva), e EU sou xarope?

Cuecas dissimulados: Jura por Deus mortinho que vocês saem na balada sem preparo psicológico algum, bebem todas, falam merda pra quem quiser, abordam pessoas sem o menor tato e ainda acham que vão comer alguém... de qualidade?

Não, não acho que as mulheres devem aguentar cantada de machão se não estiverem afim. Mulheres que pagam suas próprias contas podem sim sair quando quiserem para fins diversos. Mulheres devem respeito a homens em espaço público somente quando a recíproca é verdadeira. Do contrário, é voadora de grosserias gratuitas até onde minha criatividade permitir.

E haja criatividade...