sexta-feira, 30 de julho de 2010

Homenagens

Amigo meu muito querido veio me visitar essa semana. Ele é estrangeiro mas nos conhecemos há 10 anos já. Éramos duas crianças e muitas coisas mudaram em nossas vidas. Ele é meu amigo "fita K7", como dizem por aí. Não importa quanto tempo a gente fica sem se ver ou até mesmo sem se falar, mas quando nos reencontramos as coisas permanecem iguais. Entre nós nada muda, tal é o sentimento de admiração, carinho e amizade sincera que temos um pelo outro.

Aí eu resolvo juntar o amigo e a amiga Ana. Lógico que o mais bacaninha para os dois é "mangar de mim". Fomos ao restaurante da marida para tomar uns drinks e comer cordeiro. Eis que os dois resolvem fazer uma singela e profunda homenagem à minha pessoa:

"Ana: Quando eu comecei a trabalhar na cozinha eu era toda delicadinha, tinha medo de brigar com as pessoas, de gritar... A Talitta mudou a minha vida. Além de ter me trazido para trabalhar aqui e me incentivar no mundo da gastronomia, ela me ensinou a ser mais agressiva com o pessoal. A não ter dó.
O amigo: Ah sim... eu concordo. A Talitta mudou a minha vida também. Antes de conhecê-la eu costumava ser hetero.
Talitta: ..."

Brigada gentchi. Acho que uma pessoa não é nada nessa vida sem os amigos!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Famosidadji

A Ana tá siachando. Saiu na TV! Pra quem quiser ver, tá aí o link do programa que ela participou.


Quando Ana saiu da RedeTV e voltou ao seu trabalho, descobriu que tinha um monte de recados. Pessoas que ligaram dizendo que a viram na TV, querendo elogiar o trabalho dela, cumprimentá-la, babar ovo, e tudo e tal. 

Moça educada que é, pegou a listinha e resolveu que retornaria para essas pessoas. A primeira da lista era uma senhorinha chamada Dona Santa. E lá foi a Ana ligar para a Dona Santa, sua primeira fã:

" Ana: Alô, Dona Santa? A senhora me ligou aqui no restaurante...
D. Santa: Ah sim! Eu te vi na televisão! Você foi muito simpática, muito linda! Adorei a sua receita! Muito boa a apresentação! Você está de parabéns!
Ana: Ah, que isso... obrigada... não precisava...
D. Santa: Então, eu sou deficiente e vendo panos de pratos. Você não estaria interessada em comprar panos de pratos para o restaurante?
Ana: ...
D. Santa: Alô?
Ana: Não, não tenho interesse em comprar panos de pratos. Na verdade, não posso trabalhar com panos de pratos, por causa da vigilância sanitária.
D. Santa: Mas, nem para a sua casa? 
Ana: Hum... não."

Furiosa e com o ego ferido, Ana não retornou para mais ninguém da lista. Instruiu a telefonista do restaurantes para que se alguém ligasse novamente, diga que não está disponível e que mandem um e-mail.

Ana me contou isso num boteco da Vila. A minha risada ecoou por todo o lugar, chamando mais atenção ainda. Quase engasguei com o chop.

HAHAHAHAHA!!! Quer ser famuósa, bem? PIMBA!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Nova York eu te amo

Eu tive um relacionamento romântico uma vez. Parece que foi há um milhão de anos atrás.

Um dos momentos mais french bizarre que eu passei com ele foi um dia que, bem na hora do meu almoço, eu peguei meu celular e mandei uma mensagem : "Vamos hoje ao cinema!". Ele, me respondeu que não queria, ou não podia, não lembro. Eu fiquei muito chateada, liguei pra ele, brigamos. Eu disse que ficava muito chateada por nunca ter a companhia dele. Ele, muito aborrecido e alterado, achava um absurdo eu insistir tanto para ter a companhia dele para ir ao cinema. Como se eu nunca fosse sozinha... Ele disse que não estava nem um pouco afins de ir ao cinema, que queria ficar sozinho. 

Eu sempre gostei de filmes, mas o meu gostar é sem muito critério, sem conhecimentos técnicos. Ele era cinéfilo, fez cursos e o escambal. De alguma forma nós conseguíamos nunca ir ao cinema. E mais um convite recusado estragou o meu dia. Assim que saí do trabalho, ele me ligou. Disse que estava perto e iria me buscar. Eu disse que não precisava pois estava de carro. Me convidou então para jantar. Eu recusei, afinal estava chateada. Alguns minutos depois ele me liga novamente e insiste no convite. Eu, já perto de casa, recuso novamente.

Me chamou a atenção hoje na locadora o "Nova York eu te amo", um filme feito como uma série de curtas, sobre as pessoas e pequenos, mas significativos, acontecimentos em suas vidas. Com NYC de cenário. Amo NYC, então aluguei. A cena 11 me chamou mais a atenção ainda. Um casal, do lado de fora do restaurante, conversando desconhecidos. Não vou contar tudo, mas em determinada hora o homem diz à mulher:

" -  Por que você está me dizendo tudo isso?
  - Porque esta noite eu quero que as coisas sejam diferentes".

A mulher disse ao homem que ela iria voltar ao restaurante para o marido, que não a enxergava e não a valorizava. O homem disse a mulher que tinha pena do marido dela, por não admirar a mulher que estava a sua frente.

Voltando no tempo, no dia seguinte ao meu convite recusado, saio para jantar com meu beau. Fomos a um daqueles restaurantes simples chineses da Liberdade. Sujos, mas comida incrível (escolha minha, claro). Minha raiva já tinha passado, muito rápido como sempre, e conversávamos gargalhando. Foi quando ele me revelou que, no dia anterior ele tinha ido ao cinema sozinho assistir a "Nova York eu te amo". Meu humor mudou na hora.

Eu, lógico, não entendi nada e fiquei puta. Poxa! Eu tinha convidado!

Ele, indignado, disse que ele precisava do espaço dele. Que tinha direito a ir ao cinema sozinho. "E que droga, Talitta! Nunca posso te contar nada que você fica brava!"

Ha! Foi sair do cinema que se sentiu culpado. Tentou consertar as coisas, querendo me agradar com carona e jantar. E ainda por cima, não aguentou ficar quieto e tinha que me contar que foi ao cinema.

Naquele momento, enquanto encarávamos um ao outro, cada um na sua razão, mostrávamos o quanto um não queria entender o outro. Sabíamos exatamente o que isso significava, só não estávamos prontos ainda para assumir.

Como eu conhecia a cara dele. Ele abaixava o rosto e me olhava por cima dos óculos. Ele nunca me encarava por muito tempo. Ficava desviando o olhar, se sentindo culpado, mas incapaz de assumir culpa alguma. O que me deixava ainda mais puta. Eu desvendei o olhar dele no primeiro dia. Nunca me enganou, e era por isso que tinha que usar os argumentos mais mirabolantes para despitar. Acho que ninguém consegue me encarar por muito tempo mesmo. Covardes.

Juro que, como no filme que ainda não tinha assistido, passou pela minha cabeça :

"- Gostaria que as coisas fossem diferentes..."

Mas não foram. Eu ainda imagino o que será que passou pela cabeça dele para ter se sentido culpado. Imagino se o próprio filme e até alguma cena em particular contribuíram.

Estranho como depois de um tempo de convivência você pode conhecer uma pessoa, mas nunca entendê-la de verdade. Eu sempre soube que ele tomaria as atitudes que tomou, mas nunca entendi porque. Ele também me conhecia, sabia que eu explodiria em todas as paredes, mas como a mulher no filme, eu só queria que me enxergasse, que me valorizasse.

Pensando bem agora, ambos entendiam muito bem o porquê. Mas de qualquer forma ainda era doloroso admitir.

Pena eu esbarrar com esse filme só agora. O filme é bonito, algumas cenas te fazem pensar e tudo acaba em final feliz. Ha, tive até uma idéia subta de fazer um "São Paulo eu te amo". Acho que tenho assistido a filmes europeus demais e ainda acho que o filme todo tomaria mais profundidade se nem tudo acabasse em beijinhos. Eu daria um tom mais realista, focaria na solidão, porque no final das contas é tudo o que temos, colocaria algumas cenas cômicas relacionadas ao stress do paulistano,  convidaria outros cineastas para dirigirem os romances, pois disso eu não entendo.

Aquele momento no restaurante chinês poderia fazer parte de um filme com certeza. Definitivamente cômico, mas sem final feliz.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Rapidinha

As amyghas conversando hoje na hora do almoço, sobre uma ajudar a outra com planilhas:

"Amygha 1 - Meu, que servicinho de presidiário fazer essas planilhas hein...
  Amygha 2- De presidiário, não... é de corno mesmo!"

Falei.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Família

Faz tempo que não falo da família aqui. Mas impossível não ter uma presepada digna de alarde durante um simples almoço. 

E foi assim no último domingo: minha mãe não estava em condições de cozinhar. Na minha casa isso jamais foi problema pois todos os outros 3 integrantes cozinham muito bem, obrigada. E é aí que começa bagunça. Pai foi pra cozinha fazer costela de porco. Mãe ficou sentada na mesa dando palpite, dizendo que a temperatura do forno estava errada. Aí chega o irmão pra fazer um molho pra carne com vinho branco, no mesmo fogão do pai. E chega eu dizendo que não como carne de porco sem geléia. E vem o pai com o vinho tinto querendo saber qual taça que serve. E vem o irmão querendo saber onde está o vinho branco aberto. E a mãe grita que tem que tirar a costela do forno e botar no forninho pra dourar. E eu não quero geléia de blueberry porra nenhuma, quero de jabuticaba.

Aí o irmão vai lá e mete a colher no arroz do pai.

"TalittaJúnior, o que você tá fazendo?
Irmão: Só quero provar.
Talitta: O pai vai xilicar, você vai ver. Arruma o buraco que você fez no arroz."

Ele não arrumou.

"Pai: QUEM MEXEU NO MEU ARROZ?
 Talitta: Foi o Júnior, he.
Irmão: Porra.
Pai: Olha o buraco! Tem que arrumar! Tem que arrumar!."

E a gente se mata antes do almoço ficar pronto.

Superada essa fase, vamos para a mesa. Os terríveis Albuquerques da rua íngreme são conhecidos pela sua finesse, educação e ampla cultura na sociedade arujaense. Isso da porta de casa para fora, claro.

Dentro de casa, na mesa do almoço:

"Irmão: Caralho, meu!
Mãe: Júnior! Que que isso? Respeito na mesa do almoço!
Irmão: O pai passou aqui e peidou do meu lado!
Talitta: Puta que pariu! 
Mãe: Talitta! Coisa feia!
Pai: HAHAHAHAHAHAHA!
Talitta: Devia botar uma rolha aí.
Mãe: Ou costurar, né. Sabe que a tia Anna precisou dar uns pontinhos? Coitada, ela não se aguentava...
Pai, irmão, Talitta: Oi?
Mãe: É sim... o médico disse que entendia que era algo muito desconcertante... deu uns pontinhos e ela parou.
Irmão: Como assim?
Talitta: Parou com a flatulência desenfreada.
Irmão: Mas que belo assunto pra hora do almoço né...
Mãe: Seu pai deveria dar uns pontinhos."

E na hora da sobremesa, assistindo ao encerramento da Copa.

"Pai: Acho lindas as músicas africanas!
Mãe: Ai, eu também! Parece que estou vendo o Rei Leão!
Talitta: Mél Déls...
Mãe: Adoro a música do Rei Leão! Eles não vão cantar o Rei Leão?
Talitta: Mãe, eu acho que a África do Sul não se reduz ao Rei Leão.
Mãe: Eu ainda acho que eles deviam cantar o Rei Leão."

Refeição completa.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ideais iluministas

Dias desses eu fui encontrar minha família e meus padrinhos no paraíso invernal dos endinheirados e cafonas paulistanos: Campos do Jordão. Alugaram um chalé no qual ficamos todos confortavelmente empoleirados. Levaram muita comida boa, eu contribuí com vinhos e com muitas piadas.

No meio do torpor derradeiro da orgia gastronômica, falei uma meia dúzia de palavrões para arrematar as grosserias cômicas do meu pai e padrinho. Até aí, nada demais pois fazia parte do contexto da coisa.

Eis que, no meio da conversa, a Barbie morena da família, que encontra-se extasiada com seu noivado, vive numa realidade paralela com lentes cor de rosa, fala sempre no diminutivo, e decidiu que seus valores familiares serão baseados em hipocrisia moralista, rudemente me interrompe e me repreende na mesa para todo mundo ver e ouvir:
"Ai Talitta! Que desnecessário falar assim! Não sei pra quê ficar falando tanto palavrão!". Assim mesmo, dando pitizinho.

Coitada. 

Nós fomos criadas juntas, sempre nos demos muito bem, mas ela não faz idéia que eu estou há anos luz intelectualmente dela. Como todo bom hipócrita ignorante, ela julgou meu comportamento sem mais nem menos. A pobre segue a cartilha social-caipira à risca, fazendo questão de deixar claro quais os comportamentos, modo de vestir e agir que considera adequados, sem espaço para individualidades ou peculiaridades. Sem espaço para criatividade ou ao menos oportunidade para deixar claro que pessoas são diferentes e é essa a beleza do mundo. Eu até poderia ter falado da calça jeans que ela elegantemente usa enfiada no rabo, mas achei melhor manter o bom humor e não levar pro lado pessoal.

Depois de deixá-la constrangida falando uma lista de meus palavrões prediletos, citei um texto que considero meu mantra pessoal, do genial Millôr Fernandes. Meu padrinho lembrou do mesmo texto e juntos fizemos uma ode ao escritor, para deixar a Barbie girl com vontade de se enfiar debaixo da mesa. Segue o texto na íntegra:

Foda-se, por Millôr Fernandes

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende? No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.
Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba...Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencialFodeu de vez!".
Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo?
Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se.