quinta-feira, 26 de maio de 2011

Mais perguntas cretinas

Sempre tem um gringo que entra na firma. Sempre me chamam pra atender em inglês, mas eu não ligo. E gringos também são cretinos. Chegam na firma falando a língua deles e esperando que alguém os entenda. Esforço nulo para falar o português. E quase sempre ficam admirados que as pessoas aqui tenham mais de dois neurônios.

" Talitta - Hi there, how may I help you?
Gringo - Oh, you speak English?
Talitta - ..."
Não, sua anta.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Conversa

As vezes eu tenho umas conversas tão cretinas, que chegam a ser surreais.

Outro dia, na firma, foi mais ou menos assim.

"- Vim comprar vinhos.
- (Cê jura?) Ahan.
- Eu quero um assim, bem levinho... Tipo um Malbec!
- Malbec é encorpado. Pinot é leve.
- É bem assim, suave?
- Não é suave. É leve.
- E aquela... o Cabernet? É mais suavezinho, não é?
- Não é suave, é leve. E Cabernet é tão encorpado quanto a Malbec.
- E o que você tem da... como chama?
- Pinot Noir.
- Isso! O que tem?
- Tem esses.
- É bem suave?
- Não é. É bem leve.
- Mas você tem algum suave?
- Não tem.
- Entendi. Acho que vou levar o Malbec. Pra mim é bem suave...
- Quantas caixas?
- Quero X. Tem desconto?
- Não tem desconto.
- Nem pra cliente antigo?
- Principalmente pra cliente antigo.
- Mas eu sempre tive desconto!
- Nunca teve desconto.
- Nem pra pagamento a vista?
- Não.
- Ah, faz um descontinho aí, vai!
- ... pausa... cara séria de c*...
- Nossa, essa menina é dura na queda! Me dá um brinde então!
- Não tem brinde.
- Me dá essa garrafa aqui então!
- Não.
- Nossa... da próxima vez vou no concorrente que me dá desconto e brinde!
- Vai nada."

Uma semana depois, adivinha quem volta?

"- Oooooooi! Lembra de mim? Quero mais umas caixas daquele Malbec suavezinho que você tem!".

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Cabelereiro

Cabelereiros são sempre controversos. 

Eu tenho dois: um que me tumultua a vida, cortando meu cabelo sempre radicalmente sem eu pedir (e eu sempre acabo gostando), e um pra manter o corte (pois esse dificilmente toma decisões sozinho).

Mas uma coisa é certa: cabelereiro é sempre abusado. Sempre acham que o seu cabelo está aquela merda quando você ousa cortar em algum outro lugar. 

No radical é assim: a pessoa que corta meu cabelo é dotada de uma objetividade, cinismo e um humor tão negro que eu nunca vi igual. Fora os comentários grosseiros quando alguém resolve contrariar seu julgamento. A gente se dá super bem. Aliás, acho que eu sou uma das poucas pessoas que consegue fazer ela rir.

Ano passado eu inventei de cortar o cabelo curto, tipo "bob" (o antigo "chanel"), e não sei da onde achava que dava pra ficar variando sempre o corte sem ter cabelo pra cortar. Numa das minhas "variadas", o cabelereiro radical não teve por onde senão cortar tipo "joãozinho". Mas eu não queria "joãozinho". Mas e daí, né? A uva me falou o seguinte:

"- Olha, a primeira vez que eu cortei meu cabelo curto desse jeito senti um alívio e uma liberdade tão fantásticos, e eu quis que você experienciasse a mesma coisa!".

O jeito foi gostar do "joãozinho". E eu gostei até.

E teve um assim também:

" - Pessoas que possuem um rosto perfeito não ficam bem com esse tipo de corte radical. Tem que ser uma coisa reta, simples. Agora, pessoas que possum defeitos no rosto, tipo você e eu, essas sim combinam mais com cortes variados."

Só foi menos ruim porque ela se incluiu no comentário.

Mas um ano passou e eu decidi que vou deixar meu cabelo crescer, pois o leão precisa de sua juba para reinar.  Acho que sem meu cabelo eu sou como "Sansão"(tá, na verdade eu fico com uma puta cara de sapa e isso não me convém). Sendo assim, por mais que eu goste, eu ando evitando o cabelereiro radical, para ir só mantendo o corte num mais tranquilinho.

O mais tranquilinho é assim: baba ovo. Eu adoro o salão, que fica na Augusta, a pessoas são modernas e afetadas, valorizam produtos de salão caros, e quando eu chego lá sempre alguém me fala que ama meu cabelo (principalmente quando está estilo ninho). Dá aquela levantada no ego, e eu não gasto um horror. É o antagonismo do radical.

Mas o cabelereiro não deixa de ser menos abusado. No meio das conversas, ele me pergunta:

" - Você tem passado o que no seu cabelo pra ele ficar assim?
- Bom, eu segui o seu conselho da última vez, e aposentei a pomada. Comprei um "leave-in".
- Ah, é? Qual marca?
- Ah, comprei um baratinho né... da Garnier mesmo. Me custa uns R$ 5,00 mangos...
- ... bom... o importante é que você acha que dá certo."

Mas não parou por aí. Conversa vai, conversa vem, falamos sobre viagens e o bonito me comenta que pretende ir para Berlin fazer um curso muito em breve:

"- Ah, mas que bacana! E vai fazer curso de que?
- Dãh! De corte, né? Cabelereiro investe em curso de corte!"

E eles juram que gosta de mim.

sábado, 7 de maio de 2011

Emília express

Desde que mudei o foco da minha carreira profissional, eu tenho tido muito mais tempo para mim mesma. Tempo este que deveria ser aproveitado para cuidar melhor do corpo e da mente. Eu tenho aquela fantasia meta pessoal, de um dia conseguir acordar bem cedo para fazer um pouco de meditação e alguns exercícios de yôga. Fazer um desjejum leve e rico em yogurts, granolas, frutas e desprovido de cafeína pois serei tão equilibrada fisicamente que ela não me fará falta. Esse ritual matutino seria em total silêncio, sem música e sem TV, para que pudesse contemplar o esplendor da alvorada. Um rápido banho de água morna, para não enrugar minha pele sensível, e tempo de sobra para me arrumar sem stress. Sair tranquilamente de casa e chegar ao trabalho com uns 15 minutos de antecedência, todos os dias.

Mas eu não vim ao mundo para ter disciplina.

Ao invés disso tudo, eu tenho a extraordinária habilidade de ser muito mais desorganizada com todo esse precioso tempo. Eu sempre vou dormir muito tarde empolgada com as groselhas na televisão, ou baixando vírus para o meu computador. Coloco o meu despertador para acordar cedo, e levanto da cama tarde. Uma soneca... duas sonecas... cacete! Estou atrasada!

Pulo da cama e tropeço nos meus sapatos do quarto, porque não tenho a decência de guardá-los no armário. O tropeço me desequilibra e me faz bater na porta que divide a sala e o quarto. Cambaleando de sono ainda, vou correndo como uma lesma doida tomar um banho, muito quente. Saio do banheiro e volto pra sala pra ligar a TV no jornal da manhã, porque eu ne-ces-si-to saber das desgraças do mundo logo cedo. 

Quase nunca dá tempo de secar o cabelo, então vai molhado mesmo, passo um creminho e é isso aí, seja que Deus quiser. Que roupa usar? Qualquer uma, não preciso (e nem tenho) tempo de combinar nada de qualquer forma. Coloco uma maquiagem básica na olheiras, só pra não assustar as criancinhas na rua. E é sempre aí que começa o festival de rinite matinal: corretivo passado, blush, uma sombrinha clara e pra finalizar o rímel e ai não eu vou espirrar... segura... segura que o rímel ainda não secou...segura...segura... atchúúúúú! Dou aquela olhada no espelho e, cabelo de louca e rímel borrado, é oficial - sou a Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo.

Procuro alguma coisa na geladeira pro café da manhã e... opa! A geladeira está vazia, porque eu achei que tava muito mais legal ver a CNN do que me dignar a ir comprar alguma coisa pra comer.

Bora trabalhar!

Saio correndo e ligo o rádio do carro na CBN, pra ouvir a "Charge" e as opiniões do Cony, do Xexéo e da Viví. Como está já em cima da hora, as vagas para estacionar o carro são assim, disputadas. Existe a vaguinha ninja, onde só caberia carros pequenos como o meu. Até pouco tempo ninguém botava uma fé que cabia um carro lá, então eu tinha aí uma vaga só pra mim, pra todo sempre... Mas não. Os almofadinhas da faculdade descobriram minha vaga e agora eu tempo que competir. 
Lá está a vaga. Eu vou indo em direção a ela e dou seta para a esquerda, para cruzar a rua fazer a volta e estacionar. Do sentido oposto da rua, depois que eu dei seta, lá vem um carro pequeno também e faz que vai parar na minha vaga. AH NÃO! É um daqueles momentos "western": os dois dão aquela hesitada, e de dentro do carro ambos se encaram. Eu acelero, ele acelera e em uma ato de pura imprudência eu jogo o meu carro para a esquerda bem em cima da minha vaga e da calçada porque "eu dei seta primeiroooooo!". Putinho da vida, o outro carro vai embora e eu manobro meu carro para estacionar. Saio do carro tropeçando no cinto de segurança e vou pegar um desjejum rico em cafeína, carboidratos, glútem e gordura. Faltam 5 minutos.

De óculos escuro pra esconder a cara de sono, cabelo de louca e roupa despareada entro no boteco que é praticamente a extensão da firma. É sempre aí que escuto:

" - Eita minina estiloza! Ninguém se veste igual essa aí!".

Né?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Down under

As férias sempre me rendem algumas situações bem vexatórias.

Logo na primeira semana, me acontece uma que me deu vontade de abrir um buraco no chão pra voltar pra casa mais rápido.

Fui visitar o irmão na companhia de um amigo de longa data. O amigo, gringo, que sempre foi amigo e mais nada, dividiu o quarto comigo durante as viagens afim de dividir também despesas. Dividir quarto com um amigo não é a mesma coisa que ir pro bar com um amigo. Eu, mais que ninguém, preciso e valorizo muito minha privacidade, não durmo bem com outras pessoas no mesmo ambiente e sou muito espaçosa. Tenho minhas rotinas, rituais e manias e não tenho ansiedade nenhuma de dividir elas com ninguém.

Enfim. Depois de um dia cansativo e 4 horas mofando, devido ao atraso num vôo, sem internet, num aeroporto de uma cidade que pensa que tá no "primeiro mundo" e muita turbulência depois, finalmente consigo chegar ao hotel do destino número dois. Feliz por conferir que fiz uma boa escolha para a acomodação, só consigo pensar em uma única coisa: banho. Quente. Demorado.

Deixei o amigo ir primeiro para assim evitar que ele ficasse ansioso com a minha merecida demora. Separei meu pijama, sabonete, shampoo, condicionador 1, condicionador 2, creme hidratante para o corpo, hidratante com ácido retinóico para o rosto, creme para a área dos olhos, escova de dente e pasta de dente e, liberado o banheiro, mijoguei.

Aaaaaahhhh, mas que maravilha que é um banho depois de um dia cansativo!

Algumas horas depois, eu decido que talvez seja melhor fechar o chuveiro e sair do banho (a placa com uma mensagem de "favor economizar água" com apelo ambiental/catastrófico ajudou na decisão). Dou aquela espreguiçada, abro a cortina do banheiro, procuro pela toalha de banho e...

Cadê a toalha?

Eu lembrei de tudo, menos de pegar a minha toalha de banho.

Que ficou em cima da minha cama.

Do outro lado do quarto.

Cacete. Por uma fresta da porta do banheiro eu dei aquela espiada pra ver em que condições se encontrava o amigo.

O amigo estava dormindo com um travesseiro em cima da cara. Roncava um pouco também.

Puta-que-me-pariu-de-cócoras. E agora?

Arrisco sair pelada pra buscar a toalha? Parece que só o meu pensamento foi o suficiente pra fazer o amigo se mexer. Melhor não.

E se eu chamasse ele, e tentasse explicar a situação, da forma mais fria o possível, para ele não pensar bobagem? Se eu não fosse brasileira, com o fardo que toda mulher brasileira carrega mundo afora de puta oferecida, acho que não teria problema algum.

Cazzo. Dou mais uma olhada do quarto e desisto de qualquer manobra radical. Começo a dar uns pulinhos pra ver se a água do corpo escorre e assim me seco mais rápido. Foi no quinto pulo que pensei que não dava pra ser mais ridícula.

A cortina do box era de pano. Hum...idéias. Foi chegar perto e dar aquela cafungada que vi que se encostasse naquilo ia precisar de um novo banho, bactrim e fuconasol.

Olhando novamente pelo banheiro noto uma toalhinha escondidinha num canto. Devia ter uns 40x30cm, aquelas de mão, sabe? Ufa! Maravilha! Problema resolvido! Pra quem ia ficar 40 minutos coçando dentro do banheiro esperando a água secar naturalmente, tá muito bom. Depois de me secar eu estiquei a toalhinha de mão no suporte dela para que secasse.

No dia seguinte, ao acordar, vi que o amigo gringo estava no banheiro escovando os dentes. Foi por pouco que ele quase pegou a toalhinha pra secar o queixo quando eu pulei da cama e disse:

" - Você não quer usar essa toalha.
- E por que não?"

Eu poderia ter falado qualquer coisa, mas a falta de malícia minha em uma língua estrangeira me fizeram contar pra ele a história do mesmo jeito que contei aqui, que rendeu um ataque histérico de risadas no gringo (que prometeu propagar o meu infortúnio no hemisfério norte). Passado isso, ele me diz:

" - Essa toalha não é de mão. É de chão!"

As coisas podem sempre piorar. Né?