sexta-feira, 24 de junho de 2011

Dissonância cognitiva

Mais uma expressão brilhante que ajuda a justificar minhas grosserias racionais, num momento auto-afirmação.

Existe uma crença popular, baseada possivelmente em uma falsa serenidade que paira em meu semblante, que eu sou uma pessoa calma, simpática e paciente por excelência. Esse foi provavelmente um exercício teatral de anos a mim ensinado para que me encaixasse perfeitamente em qualquer ambiente social sem conflitos de qualquer natureza.

A frustração (não minha) se faz presente quando existe uma perturbação da paz (a minha). Acho desproporcional o número de indivíduos que evita discussões. Pessoas entram e saem de conversas com idéias e argumentos prontos. Parecem até saber exatamente o que querem ouvir em resposta do seu espectador. E é óbvio que, se e quando não ouvem o que querem, existe aí uma grosseria. Nunca da pessoa que fez uma pergunta ou afirmação cretina mas sempre da pessoa que se recusa a corroborar a cretinice em geral.

E isso sempre acontece comigo. Ouvi uma cretinice ontem. Daquelas que não foi a primeira vez que ouvi e tenho plena consciência de que não será a última. Sendo assim, para não criar rugas desnecessárias, eu desenvolvi um método para lidar com a cretinice alheia. O método consiste em ignorar o interlocutor a fim de não prolongar a diarréia verbal dele e evitar o seu constrangimento.

A conversa envolvia o assunto da minha profissão. O contexto: feriado, praia e descontração. O cretino: um imbecíl qualquer, patético e que precisava de ajuda para encontrar o seu lugar.

"- Ô menina, qual o seu nome mesmo?
- Talitta.
- Talitta, por favor me diga se eu estou certo ou errado...
- Hum...
- Eu fiquei sabendo aqui que você é uma enóloga...
- Não sou enóloga. Sou sommelier.
- ... eu estou tomando este vinho tinto aqui e acabei de dizer para minha irmã e seu marido que eu sinto assim um gostinho de cedro nele. O que você acha disso?"

A minha resposta foi um combinado de "por favor não me incomode com esse assunto, pois estou de folga" e "você está completamente errado, mas não vou prolongar no porquê para que não fique ainda mais constrangido".

O meu sentimento em relação a falar de trabalho com pessoas que não são do ramo quando não estou trabalhando é o mesmo de um analista financeiro em um churrasco de família ao ser abordado para dar conselhos sobre a bolsa de valores: encaralhamento. As vezes o assunto surge naturalmente, nesse caso não ligo. Mas por favor não me confunda com uma consultora de plantão a disposição para inflar o seu ego frágil e ignorante.

Me considerando uma pessoa extremamente racional, eu convido qualquer um para finalizar essa equação comigo: um bêbado babaca te incomoda e pergunta se está certo ou errado para se mostrar para a família dele. Existem duas saídas aqui:

1. Você desenferruja o seu sorriso de Miss, concorda com a cabeça e professa um "Isso mesmo..." sob o risco do cretino prolongar a conversa e fazer com que você concorde com todas as imbecilidades que ele fala, legitimando assim a ignorância dele como se fosse uma verdade passível de ser escutada por pessoas que igualmente não entendem do assunto. 

2. Você termina rapidamente a conversa contando a verdade, deixando subentendido que ele está errado e que deveria se informar melhor antes de sair falando bobagens. E claro, deixa uma imagem de si mesma(o) perante pessoas desinteressantes, pouco admiráveis e que não fazem falta, de grossa(o).

Não entendo essa coisa de ser sempre simpática (contradizendo a crendice popular). E não acho que abra tantas portas assim não. Aliás, não acho que seja elegante ser falsa para ser política. Aliás, meu medo de ser confundida com alguém burra é muito maior do que ser chamada de grossa. E acima de tudo, não tenho obrigação de adivinhar o que o outro gostaria de ouvir. Ninguém tem. Este é fatidicamente um exercício deveras exaustivo.

Não, eu não sei de tudo. Aliás, vivo minha vida partindo do pressuposto que entendo de porra-nenhuma. E gosto de aprender.

Eu sou extremamente direta e racional e repudio ignorância apesar de saber porra-nenhuma como citado anteriormente. Isso não é incoerência, é uma dissonância cognitiva. Ao mesmo tempo que digo odiar ignorância, sou censurada socialmente por não ter empatia alguma com a ignorância alheia e ser portanto chamada de "ignorante" também.

Me disseram horas depois que eu tinha "ceifado" o pobre coitado e que sua família quis se enfiar debaixo da mesa de tanta vergonha (e por analogia eu deveria me enfiar debaixo da minha mesa por ter feito um imbecíl passar vergonha por ser imbecíl).

Agora, isso é problema meu por que?